The Conversation – 30 anos das Spice Girls: como o “girl power” mudou o pop

Ano: 2026

Há trinta anos, cinco jovens do Reino Unido redefiniram o que um grupo pop poderia ser. Quando as Spice Girls surgiram em 1996 com seu single de estreia, “Wannabe”, elas ajudaram a reformular as discussões sobre gênero, sexualidade, poder e cultura pop.

À primeira vista, a fórmula delas parecia simples: músicas cativantes, personalidades marcantes e uma marca explicitamente comercial. Isso ajudou as Spice Girls a dominar as paradas de sucesso pop das décadas de 1990 e 2000. No entanto, a abordagem delas era muito incomum para artistas femininas britânicas; a maioria dos grupos femininos apostava em figurinos combinando e um visual unificado, ao contrário da marca das Spice Girls, baseada em personalidades individuais. A estratégia resultou em um sucesso enorme, mas também refletiu — e, pode-se dizer, impulsionou — mudanças mais profundas na indústria musical e na sociedade como um todo.

As Spice Girls surgiram em um momento em que o “girl power” (expressão que elas popularizaram mundialmente e que hoje consta no dicionário) atendia a um desejo crescente por autonomia e visibilidade feminina.

Ao contrário de muitos artistas pop anteriores, cada integrante das Spice Girls tinha uma identidade distinta: Mel B (Melanie Brown) como Scary Spice, Melanie C (Melanie Chisholm) como Sporty Spice, Emma Bunton como Baby Spice, Geri Halliwell como Ginger Spice e Victoria Beckham como Posh Spice. Essas personas eram frequentemente caricatas, mas ofereciam uma perspectiva através da qual os fãs (especialmente meninas jovens) podiam ver múltiplas versões da feminilidade representadas na grande mídia.

Outro segmento significativo do público das Spice Girls é a comunidade LGBTQ+. O grupo frequentemente destacou a importância desse público para o seu sucesso. Muitos fãs LGBTQ+ apontam a mensagem de orgulho e atitude da banda como um fator importante para sua autoaceitação e autoestima positiva.

Gerações posteriores de artistas femininas e LGBTQ+ — incluindo Adele, Billie Eilish, Olly Alexander, Charli XCX e Dua Lipa — citam as Spice Girls como fonte de inspiração. Por sua vez, esses artistas mantiveram vivo o legado das Spice Girls entre o público mais jovem, auxiliados pelo fácil acesso a catálogos musicais clássicos em plataformas de streaming digital.

O legado das Spice Girls
O álbum de estreia da banda, *Spice*, é o álbum mais vendido de um grupo feminino na história. Seu alcance global ajudou a consolidar o final da década de 1990 e o início da de 2000 como o auge das exportações da cultura pop britânica. Ao longo de sua trajetória, o grupo emplacou nove singles em primeiro lugar no Reino Unido, além de oito sucessos solo no topo das paradas. Nenhum outro grupo feminino chega perto dessa marca.

No entanto, a importância do grupo não pode ser medida apenas pelas vendas. As Spice Girls ajudaram a normalizar a ideia de que artistas femininas podiam dominar o mercado global sob seus próprios termos, sem se curvar às expectativas da indústria definidas por homens. Por exemplo, elas dispensaram um empresário homem em meio ao turbilhão de seu sucesso e passaram a gerenciar a própria carreira, conquistando ainda mais singles em primeiro lugar, discos de platina e turnês com ingressos esgotados.

As Spice Girls também exerceram um grau incomum de controle sobre sua música; elas participaram da composição de todas as suas canções e desafiaram as normas da indústria que frequentemente deixavam as artistas femininas de fora dos processos de decisão. Com isso, anteciparam debates posteriores sobre autoria, autenticidade e autonomia no universo pop — estando décadas à frente de discussões atuais sobre propriedade musical e poder, como a trajetória de Taylor Swift para conquistar a posse de suas gravações originais (*masters*).

O legado das Spice Girls, contudo, não é isento de tensões. O conceito de “girl power” (poder feminino) foi celebrado por tornar o feminismo acessível aos jovens, mas também criticado como um slogan comercializado que reduzia ideias políticas complexas a frases de efeito mercadológicas. Em sua última turnê de reencontro, em 2019, Geri ressignificou o “girl power” como “people power” (poder das pessoas).

Além da música, as Spice Girls tornaram-se um elemento onipresente da cultura pop britânica nos últimos anos, figurando em selos do Royal Mail, em moedas oficiais da Royal Mint e em uma colaboração com a seleção inglesa de rugby feminino. Isso demonstra que a imagem icônica das Spice Girls está definitivamente consagrada no imaginário da cultura pop britânica, assim como a de bandas como The Rolling Stones, Oasis e The Beatles.

Três décadas depois, as Spice Girls continuam sendo revisitadas de formas que alternam entre celebração, nostalgia e crítica, refletindo debates contínuos sobre gênero, comércio e cultura pop na década de 1990.