Folha de São Paulo – Spice Girls não vieram ao mundo para obedecer

Ano: 2022

Há 25 anos, Ginger quebrou os protocolos da família real britânica e deu um beijo no atual rei Charles 3º.

[RESUMO] 2022 quase acabou sem ninguém lembrar dos 25 anos de “Spice World”, o segundo disco e o único filme das Spice Girls, auge absoluto do sucesso da “girl band” mais bem-sucedida da história, que nasceu para ser um produto pré-fabricado, que exaure os artistas e enriquece os produtores. Eles, no entanto, não contavam com a “girl power” de Sporty, Scary, Posh, Ginger e Baby.

Se a cena não estiver na próxima temporada de “The Crown”, da Netflix (ainda sem previsão de estreia), que vai contar a história da família real inglesa no final da década de 1990 e no começo dos anos 2000, vai ser a prova final de que tudo na série é uma grande mentira.

O ano era 1997, a princesa Diana ainda não tinha sofrido o acidente que lhe tirou a vida no dia 31 de agosto, e as Spice Girls eram o maior fenômeno de tudo o que costuma contar para a indústria musical. Hits nos primeiros lugares da parada da Billboard, shows lotados, programas de TV, entrevistas, capas de revistas, merchandising e até um longa-metragem, “Spice World”, que chega aos 25 anos em 2022.

As cinco cantoras inglesas de 20 e poucos anos foram convidadas para um baile de gala em Londres em comemoração do 21º aniversário do Prince’s Trust, uma instituição de caridade fundada pelo então príncipe de Gales, o atual rei Charles 3º, para ajudar jovens vulneráveis a terem a formação com que sonhavam ou um emprego de que gostassem.

Encontrar um membro da família real inglesa é uma ocasião cheia de regras e protocolos, que os assessores reais fazem questão de informar previamente a todas as pessoas que têm essa oportunidade.

O príncipe de Gales, além de ser o herdeiro do trono, era conhecido por seu modo retraído e sua maneira impecável de se comportar em público —aliás, bem pouco parecido com o jeito ultrassexy e descontraído do ator Dominic West, que o interpretou na última temporada de “The Crown” e que arrasa numa pista de hip-hop numa cena, justamente em um evento do Prince’s Trust.

Perdão pela digressão, é que o assunto andava entalado na garganta.

De volta às Spice Girls, que, ao contrário de Charles 3º, eram conhecidas por quebrar convenções e expectativas. E não só isso. Como revela o documentário em três partes “A Revolução das Spice Girls” (Globoplay), as meninas brincavam a sério de verdade ou desafio, mas deixavam de fora a parte da verdade.

Funcionava assim: enquanto esperavam começar um show ou no intervalo de um ensaio, quatro delas se juntavam e desafiavam o quinto elemento a fazer algo fora da ordem. Antes do tal baile de gala em Londres em que seriam apresentadas ao príncipe, Scary, Posh, Sporty e Baby desafiaram Ginger a dar um beijo no rosto do herdeiro do trono.

A garota aceitou o desafio, como sempre fazia, e pediu para a maquiadora caprichar no batom vermelho, para poder ter uma prova física do feito. Na hora H, foi além do combinado, como também era de sua natureza, e, na frente de todas as câmeras, seguranças, assessores, empresários e sabe-se lá o que mais, disse que o achava sexy, deu um beijão na bochecha e um apertão em sua bunda.

A criação das Spice Girls foi uma iniciativa de dois produtores ingleses, pai e filho, Bob e Chris Herbert, que resolveram “revolucionar” o mercado com uma banda pop feita sob medida para o público adolescente, mas só com mulheres.

Para chegar às cinco escolhidas, botaram um anúncio num tabloide inglês chamado Stage, que, desde 1880, é consumido por aspirantes a artistas em busca de uma oportunidade. Quatrocentas garotas de 18 a 23 anos foram testadas e avaliadas em cinco quesitos: aparência, voz, dança, atitude e dedicação.

Escolhidas as meninas, a banda, ainda sem nome, se mudou para uma casa alugada pelos produtores, onde ficariam um tempo até se conhecerem melhor, descobrir os pontos altos e baixos de cada uma e ensaiar loucamente, sem interrupções, para ficar prontas para a grande estreia. Dessa temporada surgiram os apelidos, que elas mesmas escolheram: Scary, Ginger, Baby, Posh e Sporty.

Geri Halliwell, a Ginger Spice, foi pouco a pouco se tornando a líder do grupo. Era a mais ousada, a melhor atriz, a mais desavergonhadamente sedutora, a mais engraçada, a mais ruiva. Foi dela a ideia de batizar o grupo de Spice Girls.

Contrataram um empresário poderoso, Simon Fuller, que anos depois criaria os programas de TV “Idols” e “So You Think You Can Dance” e que respondia a elas. Pediram que ele rodasse as gravadoras em busca de compositores que poderiam fazer músicas para a banda, mas elas queriam colaborar na criação.

Foi assim que surgiu uma das melhores músicas pop de todos os tempos, “Wannabe”, que resume nos primeiros versos quase todos os assuntos de que tratam 99% das canções, seja de bandas com vocalistas melancólicos ou cantores/compositores inacessíveis, todos usando muito mais palavras: “I’ll tell you what I want, what I really really want/ So tell me what you want, what you really really want”.

Foi um hit instantâneo, com um clipe à altura da música e da força das meninas. Simon Fuller ficou rico e muito poderoso por causa do sucesso das Spice Girls, tanto que, a certa altura, foi demitido por elas e substituído por outro empresário, menos pavão.

Com toda a inocência e otimismo de suas músicas, as Spice Girls não vieram ao mundo para obedecer. A bunda do rei não me deixa mentir.