Rolling Stone: Como Melanie C aprendeu a abraçar a Sporty Spice

Ano: 2026

Melanie C fala sobre seu novo álbum, ‘Sweat’, a alegria de sua turnê pela América do Norte e a aceitação de sua persona Sporty Spice

Ao iniciar sua turnê pela América do Norte este ano, Melanie C tentou não criar expectativa alguma. Ela voltaria a se apresentar em várias cidades — agora como artista solo — pela primeira vez em mais de duas décadas. Algumas dessas localidades ela não visitava desde a turnê de reencontro das Spice Girls, em 2007. A venda de ingressos estava boa, mas o que aconteceria quando ela finalmente pisasse naqueles palcos, diante de uma multidão?

Acontece que o mundo sente falta de uma estrela como Melanie. “Fiquei impressionada”, conta ela à Rolling Stone. “A recepção em todos os lugares foi incrível; as pessoas cantavam até as músicas novas — o que, para qualquer artista, é exatamente o que se deseja.”

A cantora, nascida Melanie Chisholm, teve uma trajetória e uma carreira que, ao longo dos anos, foram celebradas, estudadas, criticadas e revisitadas à exaustão. Como Sporty Spice, ela e as demais integrantes das Spice Girls — Melanie Brown, Emma Bunton, Geri Halliwell-Horner e Victoria Beckham — conquistaram o topo das paradas nos anos 1990, promovendo o conceito de “girl power” que dominou a cultura pop da época.

Hoje, falando de Londres em uma tarde ensolarada, Melanie irradia otimismo. Seu nono álbum de estúdio, *Sweat*, foi lançado em maio, e ela acaba de encerrar sua turnê pelos Estados Unidos. Em cada cidade — conforme as cortinas se abriam, do Fonda ao Castro Theatre, revelando Melanie em meio a um jogo de luzes neon —, ela aproveitava para absorver aquele momento.

“Lugares onde eu, literalmente, não pisava há muito tempo foram justamente aqueles que tocaram profundamente o meu coração, ao me mostrarem que ainda existe apoio por lá”, diz ela. “Foi simplesmente maravilhoso conhecer pessoas e ouvir suas histórias sobre as primeiras vezes que me viram ao vivo — seja lá em 1998, com as Spice Girls, ou na época em que eu fazia shows da turnê *Northern Star*.” Ela acrescenta: “Existe uma comunidade linda de fãs. Nós crescemos todos juntos”.

Em *Sweat*, ela resgata suas origens na cena *rave* dos anos 90 e retoma o fio da meada de seu álbum anterior — que levava seu próprio nome e marcou uma mudança de rumo semelhante e sem receios. Durante seus anos de faculdade, uma viagem de férias à Espanha acabou se transformando em noitadas constantes, todo fim de semana, nos melhores clubes de Londres e, ocasionalmente, em festas em galpões. “Eu me sentia muito atraída por aquela união, pela alegria, pela experiência compartilhada e pela forma como tudo isso reunia comunidades e culturas tão diferentes”, conta ela. “Depois, isso acabou ficando para trás, porque as Spice Girls aconteceram muito rápido.”

O grupo entrou em um hiato por tempo indeterminado em 2000 e, embora tenham se reunido algumas vezes desde então, Melanie encontrou um novo caminho a partir de 2018, atuando como DJ. “Isso reacendeu a paixão que eu tinha pela *dance music*, e nunca mais olhei para trás”, diz ela. “Sou muito grata. Tive coragem de aprender uma nova habilidade já naquela fase da vida.”

O novo álbum reúne diversos capítulos da trajetória de Melanie: ela revisita suas memórias como uma jovem frequentadora de *raves*, abraça sua persona *Sporty Spice* e — literalmente — demonstra toda a sua competência como artista solo. O disco chega, também, alguns anos após o término do longo relacionamento de Melanie com Joe Marshall, seu antigo empresário, e coincide com os primeiros meses de seu casamento com o modelo australiano Chris Dingwall. Esse período anterior serviu como um “combustível e tanto para a criação musical”, comenta ela, inspirando faixas como “Flick of the Wrist” e “Good for Nothing”.

“Eu estava passando por muita coisa — conversas telefônicas, discussões, toda aquela raiva que precisava ser extravasada —, mas, ao mesmo tempo, conheci alguém e me apaixonei pelo homem que viria a se tornar meu marido”, relata. “Sinto que [o álbum] abrange uma gama tão vasta de emoções humanas. Ele me proporcionou uma grande jornada ao longo do disco.” Melanie destaca “Drum Machine”, a segunda faixa, que se tornou uma das favoritas nas apresentações ao vivo. “Essa música fala, essencialmente, sobre me apaixonar pelo meu marido e sobre aqueles sentimentos do início de um relacionamento — é uma sensação tão física”, diz ela. Por outro lado, o videoclipe da faixa-título — que traz um sample de “Work That Body”, de Diana Ross — mostra Melanie incorporando totalmente a persona “Sporty”: faixas de ginástica, bicicleta ergométrica, roupas de elastano e tudo o mais.

Ao refletir sobre quem ela é hoje, Melanie, aos 52 anos, relembra a quarta e mais recente turnê de reencontro das Spice Girls (sem a participação de Beckham), em 2019. “Quando fizemos os shows em estádios, a ficha finalmente caiu. Eu pensava: ‘Meu Deus, como alguém na casa dos 40 anos consegue pular por aí, como Sporty Spice, ao som de ‘Wannabe’?’ Mas, assim que começamos os ensaios, tudo veio à tona: a Sporty Spice não é alguém que eu ‘viro’; ela faz parte de mim.”

Ela continua: “Eu realmente fiz as pazes com o fato de ser uma Spice Girl todos os dias. Mesmo quando estou no palco como artista solo, preciso abraçar a Spice Girl que existe em mim, porque ela nunca vai embora. Ela está sempre presente, e isso me deixou muito mais à vontade. Acho que, quando somos jovens, muitos de nós cometemos o erro de buscar lá fora quem somos, quando, na verdade, essa essência sempre esteve aqui dentro.”

Melanie mantém um certo mistério sobre uma reunião com suas colegas de banda, mas revela qual música ela mais gostaria de cantar em uma eventual quinta turnê de reencontro. “É engraçado, porque aquelas que eu costumava chamar de ‘músicas bobas’ — como ‘Wannabe’ ou ‘Spice Up Your Life’ — são, na verdade, as que fazem o lugar vir abaixo. São as que levam o público à loucura. Então, pensando na experiência em si e em ver a alegria das pessoas, teria que ser ‘Wannabe’ ou ‘Spice Up Your Life’”. Naturalmente, ela também não descarta “Viva Forever”.

Após encerrar sua turnê pelo Reino Unido e pela Europa, além de suas apresentações na Ásia e na Austrália, Melanie conta que voltará à América do Norte em breve. “Tem sido uma experiência maravilhosa voltar a tocar ao vivo na América; sinto que fui recebida de braços abertos”, diz ela, radiante. “Eu me sentia um pouco culpada por ter demorado tanto tempo para voltar e, bom, só quero dizer que não vou deixar passar tanto tempo até a próxima vez.”