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Se você falasse com meus professores, eles te diriam que eu era uma rebelde
na escola sem mencionar que eu conseguia fazer duas coisas ao mesmo tempo.
Eu podia sentar lá fofocando e ouvir a aula ao mesmo tempo. Se o professor
perguntasse: "Melanie, o que eu acabei de falar?", eu era capaz de responder
com exatidão. "Certo, er...ENtão para de falar",ele falaria, voltando à
matéria.
Intake HIgh School, onde eu comecei aos 13 anos, era no meio de uma área
barra pesada. Eu fui pra lá porque ela oferecia dança, teatro e música pra
uns 30 alunos, e era nisso q eu estava interessada. Eu ia bem na Kirkstall
Middle School, mas a maioria das minhas notas caíram na Intake High. Eu ia
bem em artes, música, dança e teatro.
Eu amava Inglês. Eu tinha uma grande imaginação e era ótima em escrever
histórias. E no resto... eu gostava de ler mas nunca curti Matemática.
História me fascinava. Ciências também, principalmente quando fazíamos
experiências e eu explodia tubos de ensaio e colocava fogo nas coisas.
Tirando isso, as aulas eram chatas.
Eu passava muito do meu tempo livro na sala de música tocando bateria. Você
tinha que agendar a bateria antes e ficar lá no seu tempo. Uma vez cheguei
numa sessão e encontrei uma garota lá, praticando uma batida complexa. Eu
esperei ela terminar, mas ela continuou tocando. Ela estava tomando meu
tempo! Bem, eu queria tanto tocar que bati na cabeça dela com minhas
baquetas. "Sai da bateria agora,é a minha vez!" Claro q ela não conseguiu
resistir e me bateu de volta e em segundos estávamos numa briga de baquetas
no corredor. Quando acabou, eu tinha perdido todo o meu horário de tocar.
No meu primeiro dia no Intake High, eu cruzei com Rebecca Callard, que eu
conhecia vagamente de Jean Pearce. Nos demos bem imediatamente e ficamos
melhores amigas. (Sherrel e eu ficamos em grupos diferentes mas ainda éramos
boas amigas, quase como irmãs). Rebecca e eu definitivamente somos alma
gêmeas. Desde o início parecia q uma sabia o q a outra estava pensando e
nossas vidas seguiam um padrão similar.
Nós não temos o tipo de amizade de se ligar todos os dias, mas estamos
sempre lá uma pela outra quando há uma crise. Estamos totalmente no mesmo
patamar e sempre foi assim. É quase como se nos conhecêssemos de uma vida
passada - ou muitas vidas passadas. Há uma conexão muito forte entre nós.
Rebecca era pequena e linda, como uma bonequinha, com um cabelo cacheado
castanho adorável. A primeira coisa q notamos uma na outra era que as duas
tinham o cabelo solto com um clip de um lado. Era um sinal! Depois disso,
nós nos ligávamos de manhã pra saber como usaríamos o cabelo naquele dia.
Nós duas éramos geminianas. Coincidência! Logo ficamos grudadas.
Como você estaria a cada dia era algo importante. Nosso uniforme era um
agasalho com gola em V vinho e uma gravata listrada combinando, camiseta
branca e saia ou calça preta. Eu usava calça na maioria das vezes, apesar
que passei por uma fase de saias curtas. Como era uma escola de artes
performáticas, você podia se expressar um pouco. Eu lembro de usar batom
laranja florescente com contorno preto e uma jaqueta de brim laranja em cima
do meu agasalho vermelho. Isso não era nada comparado a algumas das outras.
Tinha uma garota da minha sala que parecia a Tina Turner, ela devia usar uma
lata de spray de cabelo por dia. O cabelo dela era bem punky e eu fico
surpresa que não implicavam tanto com ela. Se bem que ela parecia durona e
era durona.
Muitas garotas não gostavam de mim ou da Rebecca e nos rotulavam o tempo
todo. Algumas delas ficavam contra Rebecca porque ela tinha aparecido na TV
e em filmes como "Scab" e "Will you still love me tomorrow". Quando a mãe
dela conseguiu um papel em "Coronation Street", a inveja aumentou. A gente
saía com a Sherrel e o grupo dela um pouco - Susan, Deslyn, Nicola, Sarah e
Samantha - mas tinha muita besteira tipo "Eu não vou falar com ela" no
grupo. Minha parceira de dança (e melhor amiga quando eu e Rebecca brigamos)
se chamava Kerry ,ela tinha cabelos ruivos e seios enormes. Ela era alta e
sardenta e usava muitos anéis importados. Todos os garotos paqueram ela.
No Natal, eu e Rebecca nos compramos exatamente os mesmos presentes porque
nós sempre queríamos as mesmas coisas. Um ano foi um kit de sombra, cheia de
rosas, verdes e roxas, outro ano foi o perfume da Benetton. Passamos por uma
fase em que não usávamos nenhuma maquiagem, só batom, então nenhum prêmio
pra quem adivinhar o que nos demos naquele Natal. Éramos iguais e íamos pra
todo lugar juntas.
Quando Rebecca começou a fumar,ela me disse q eu devia experimentar. Eu
resisti por anos, mas a curiosidade me venceu no final. A gente escondia
nossos cigarros embaixo do pout-pourri da mãe dela e quando ela descobriu,
levamos uma bronca. Pra ser honesta, eu não gostava muito e logo parei.
Infelizmente eu provei de novo mais tarde e apesar de não fumar muito,é
definitivamente um hábito que eu preferia não ter.
Eu gostava das aulas contemporâneas do Sr COnnell. Ele era um professor tipo
"Siiiiiinta o movimento em seus braços". De tempos em tempos,ele deixava eu
dar a aula. Era ótimo. Eu pude tentar algo novo e mandar em todo mundo de
uma vez só.
Quando eu desloquei a rótula do meu joelho na aula do Sr COnnell e uma
ambulância chegou pra me levar, eu estava naquela idade em que tudo que você
se preocupa é parecer descolada. Isso não era fácil enquanto eu gritava aos
para-médicos: "Só acerta ela!Agora!" ou depois quando eu manquei pelo pátio
na minha mini saia, com gesso na minha perna (nós chamamos de "pots" no
Norte). Eu ainda podia fazer os splits. Coincidentemente Rebecca deslocou a
rótula dela algumas semanas depois de eu machucar a minha. (Outro sinal!). A
mãe da Rebecca e a minha tinham valores parecidos e nós não podíamos sair
muito quando tínhamos 14anos - nunca durante a semana e ocasionalmente pra
festas. Nós só lembramos de ir pra uma festa na época. Acho que nos deixaram
ir porque as duas estavam com gesso - e você não pode levantar muito com a
perna machucada, ou então foi isso q nossas mães pensaram. Chegamos na festa
com roupas combinando (combinado dias antes,claro).
Como uma homenagem a Neneh Cherry, eu usei uma blusa preta com listras - a
da Rebecca era verde limão - e calças esportivas. Nos meus pés tinham tênis
azuis Travel Fox, Rebecca usava Filas verdes com cadarços laranja. Legal,
cara. As duas tinham o cabelo pra cima como abacaxis, com cachos
cuidadosamente caídos pra baixo.
Você provavelmente adivinhou que foi nessa época que o clip da Neneh CHerry,
"Buffalo Stance", saiu! Rebecca também era uma grande fã de Bros e usou uma
jaqueta de couro horrível e Grolsh presos nos cadarços do tênis. Eu era mais
fã da Neneh Cherry e da Tracy Chapman, e depois Bobby Brown. Eu amava
Whitney Houston também. No meu quarto, à noite, eu escrevia todas as
palavras das músicas do primeiro álbum da Whitney.
Nós estávamos saindo com gêmeos idênticos na época - Andy Wilkinson (eu) e
Tony (Rebecca). Como não podíamos sair muito, íamos muito pra casa deles nas
tardes de sábado. Era tudo muito inocente - mãos dadas e tal - nós não
éramos o tipo de garotas que você veria beijando garotos atrás do
bicicletário.
Voltando a festa - eu não sei onde Andy e Tony estavam,mas nós estávamos na
cozinha ounvindo um cara chato,chamado Mark, tagarelar. Ele era tão chato
que Rebecca pegou um ovo, encostou na cabeça dele e ameaçou: "Se você falar
isso de novo,vou quebrar esse ovo na sua cabeça."
Bem, a resposta era inevitável naquele momento e Mark repetiu. Rebecca
quebrou o ovo na cabeça dele. Ele ficou louco.
Eu e Rebecca subimos as escadas, rindo mas desesperadas pra fugir do Mark,enquanto
ele perseguia a gente furioso,falando palavrões e gritando como um
maníaco,com gema escorrendo pelo seu nariz. Quando ele nos alcançou (não
demorou muito), ele puxou nós duas pra baixo pelos cabelos. Isso nos deixou
de fora das festas por um tempo.
Quando tirei o gesso,eu tive que fazer fisioterapia. Eu esperava as sessões
todo sábado no hospital local de Leeds porque elas eram cheias de jogadores
de futebol com seus shortinhos. (Claro que eu fazia questão de vestir o
menor dos shorts) Algumas semanas depois, meu pai começou a ir comigo porque
ele machucou os joelhos no futebol. Isso acabou com minhas chances de
flertes, infelizmente.
Intake High era bastante conhecido por seus musicais,mas eu e Rebecca nunca
ganhávamos bons papéis. Nós estávamos no coro de "Godspell",cada uma com
dois versos pra cantar. Os meus eram: "Você é o sal da terra, você é o sal
da terra" e e eu tentava encaixar um "Maltrapilho!" por ali. OS versos de
Rebecca eram:"Você é a cidade de Deus, você é a cidade de Deus". Apesar de
não fazer muito, tínhamos que ficar no palco o espetáculo todo. Você pode
nos ver no vídeo oficial da escola, conversando animadamente no fundo por 90
minutos.
A maioria dos meus professores parecia não conhecer o significado da palavra
apoio. Um professor era de Birmingham. Ele me disse que eu nunca chegaria a
lugar nenhum porque falava muito alto. "Você está destinada a nada, Melanie
Brown!",outro professor disse. Eu precisava ser encorajada, não posta pra
baixo,se eu quisesse me dar bem. É uma pena q eu não era. Minha mãe era a
única pessoa q dizia: "Vá e faça algo de você mesma. Você pode." Ela sempre
acreditou em mim.
Eu estava convencida de q um professor pegava no meu pé, então minha mãe o
confrontou na reunião de pais. Assim que ela sentou e ele viu o nome dela no
crachá, ele sentou na cadeira e suspirou: "Oh, Melanie Brown!"
"Melanie acha que você pega no pé dela",disse minha mãe,"Você sempre grita
com ela mesmo quando não é ela que está causando problemas. Ela disse que
sempre que você entra na sala você briga com ela e põe ela pra fora."
Ele pensou por uns minutos e disse:"Eu não posso evitar. Como professor,
você automaticamente grita com a criança escandalosa, aquela que você pode
ouvir do corredor. Mandar a mais escandalosa pra fora cala os outros.
Infelizmente, Melanie é sempre a mais escandalosa. Nesse respeito pode
parecer que eu pego no pé dela..."
Ele tinha um ponto, mas ainda era injusto comigo.
Eu não achei minha adolescência fácil. Enquanto eu amadurecia,comecei a me
sentir mais e mais excluída. Eu suponho que fosse o sentimento usual da
adolescência - sentir-se totalmente sozinho, incompreendido e isolado,
ninguém respondendo minhas perguntas ou pra me ajudar a enfrentar as enormes
mudanças que te preparam pra vida adulta. Seus pais não se comunicam de fato
com você, a não ser dizendo: "Coma seu jantar!" e "Lave a louça!" A vida
parecia muito chata e sem sentido.
Eu me sentia desconectada. Eu não podia aceitar que ficar sozinha com seus
pensamentos era parte da vida. Agora eu entendo que você pode dividir seus
pensamentos e sentimentos com alguém, você pode se explicar ao máximo,mas no
fim das contas mesmo quando você tem alguém no mesmo nível que você, você
ainda está sozinho com o que pensa e sente.
Eu ainda estava fazendo inúmeras perguntas. "Onde estaríamos se não
estivéssemos aqui?", "E se quiséssemos morar na lua?", "Como eu pego uma
estrela?", "Existe um mundo diferente em algum lugar?", "O que acontece
quando morremos e pra onde vamos?". A resposta universal era:"Cala a boca!"
Quando mais velha e complicada eu ficava,menos atenção eu recebia,em parte
porque eu tinha uma irmã mais nova. Danielle e eu tínhamos essa relação de
amor e ódio, essa tensão de irmãs. Ela me enlouquecia. Ela estava sempre na
minha porta dizendo:"Eu vou te fazer levar bronca, Melanie!"
Eu
também não era muito legal com ela. Eu a estrangulava, dava queimaduras
chinesas e a amarrava em cadeiras. Minha mãe tinha que arrumar babás, mesmo
quando eu já tinha idade suficiente pra cuidar da Danielle. A babá era mais
um guarda costas que uma babá. Eu me encrencava muitas vezes e tinha que
subornar Danielle pra ela não contar pro papai. Você não podia contar nada
pra ele com medo de ser punida.
Nessa época, eu estava sempre de castigo, o que significava que eu não podia
receber amigos, ver TV no quarto, falar no telefone e tinha que ir direto
pro meu quarto depois do chá e ficar lá. Sozinha no meu quarto eu escrevia,
escrevia e escrevia - coisas pesadas e intensas. Quando você lê agora,é bem
inteligente,mas parece um pouco que você está viajando.
Eu tenho todos os meus diários antigos,de quando eu tinha 12 anos até hoje,e
ainda escrevo como me sinto quando tenho vontade. É uma boa maneira de
expressar seus pensamentos íntimos,entender sua cabeça e começar a se
compreender.
Eu passava muito tempo naquele quarto. Enquanto eu crescia,eu fui devagar
mas com certeza excluída dos acontecimentos adultos. Eu era mandada pra cama
quando amigos vinham ver meus pais à noite, o que era chato porque quando eu
era mais jovem,eu podia participar. Agora, porque eu entendia bem mais, eu
não era convidada. Eu não gostava. Eu sou adulta, eu pensava, mas eles me
tratam como criança. Só aumentava meu sentimento de isolamento.
Eu sei que meu pai me amava, mas na época ele não demonstrava. Ele não
expressava suas emoções, pelo que eu podia ver. Era só:"Não faça isso,não
faça aquilo, você está de castigo!" As regras se multiplicavam, ele ficava
mais rígido a cada minuto. Eu constantemente me pegava cantarolando Eu te
odeio, Eu te odeio. Eu tinha muitos sentimentos controversos por ele,porque
por mais q eu o odiasse,eu o amava também, é óbvio. Ele era meu pai.
Às vezes eu sentia muito por ele. Eu chorava horrores quando via, pela
janela,ele indo de bicicleta pra fábrica na chuva ou na neve. "Meu pai tem
que pedalar 40minutos pro trabalho", eu chorava com pena.
Como meu pai, minha mãe estava trabalhando bastante. Ela teve o mesmo
emprego na C&A por 18 anos, e também fazia trabalho extra pra pagar pelas
aulas de dança minha e da Danielle, limpando banheiros na casa de velhos.
Ela dizia que valia a pena, porque dançar nos cansava e nos mantinha fora de
problemas, mas significava que era não estava tanto por perto quanto
gostaríamos. Quando ela estava, ela estava sempre cansada.
Pra piorar, eu briguei com Rebecca no meu segundo ano no Intake High. Foram
as garotas implicando com ela q começaram. Alguém me fez falar grosserias
pra ela no banheiro nenhuma de nós consegue lembrar bem o que foi e isso
realmente a chateou.
"Como você pode dizer isso, Melanie?", ela gritou, me empurrando com força
na parede. Eu estava chocada. Já tínhamos discutido antes,mas nunca tinha
sido físico. É isso. Eu não falo mais com você!", eu gritei de volta e fui
embora.Não nos falamos por 7meses depois disso.Era horrível e depressivo,mas
éramos muito orgulhosas pra voltar atrás.
Umas semanas depois eu me meti em confusão na escola. Eu tenho vergonha do
que fiz até hoje. Algumas outras garotas e eu escrevemos uma carta obscena e
mandamos pra esse garoto esquisito que víamos por lá. Ele tinha necessidades
especiais e achava difícil se encaixar lá, então era particularmente errado
implicarmos com ele. Acho que percebemos sua vulnerabilidade e tiramos
vantagem disso. Crianças podem ser tão cruéis. Algumas das piores coisas que
uma pessoa pode fazer são feitas na escola. É lá que distinguimos certo de
errado e testamos nossos limites morais, acho, mas ainda me sinto culpada
pelas coisas que colocamos naquela carta.
Bem, um professor a encontrou e confiscou e nos mandou pra casa. Foi tão
ruim q o diretor até pensou em nos expulsar.Eu estava em pânico. O q meu pai
ia dizer? tarde, meus pais foram chamados na escola. Meu pai teve q trocar
turnos no último minuto e minha mãe teve a tarde de folga no trabalho. Podia
ter sido bem pior.
Meu pai estava tão, tão bravo quando voltou pra casa. "Você pode imaginar a
gente lendo essas sujeiras na frente dos seus professores?", ele me
perguntou repetidamente. Ele ficou nisso o tempo todo. Eu abaixei a cabeça
com vergonha. Eu não tinha nada a dizer em minha defesa. Fiquei um mês de
castigo.
Eu nunca tinha ficado em problemas assim antes e eu temia encarar todo mundo
na escola. Presa em casa, eu sentia pena de mim mesma e comecei um espiral
pra baixo de depressão. Logo eu me vi num ponto em que não via razão pra
continuar.
Eu não sei de onde veio a idéia da overdose. Eu só sei que a planejei 2 ou 3
semanas antes. Meu pai faria as compras numa sexta - quando ele recebia o
salário e a geladeira estava vazia - e ele sempre trazia Anadin ou
paracetamol. Essa sexta ele trouxe Anadin Plus,a versão mais forte.
(Eu não sabia na época, mas depois descobri que pílulas pra dor de cabeça
são a pior coisa com que você poderia tentar se matar. Elas fazem seu
interior sangrar e é uma morte terrivelmente lenta e dolorosa). Eu tive que
planejar porque ia ser estranho se eu pegasse todo o Anadin do armário de
uma vez. Eu pegava um pouco por vez e naquela sexta peguei o pacote todo,
pra juntar com as partes que eu já tinha guardado.
Eu tinha 14 anos. Eu me sentia incompreendida. Eu queria escapar do meu
quarto, daquela casa, daquela família, do mundo e da vida. Eu não me
desgostava, eu só pensava Esse lugar seria tão melhor sem mim porque tudo
que eu pareço causar são problemas, chateações e caos. Eu achei que ia dar
sossego a todos se não estivesse ali. Eu queria me libertar. Eu me sentia um
alien. Eu não achava que meus pais ficariam tristes quando eu me fosse. Bem,
talvez bem lá no fundo eu achasse, mas eu não reconhecia isso até
recentemente. Eu bloqueei tudo por anos.
O que eu mais lembro da overdose foi me olhar no espelho, tomar as pílulas
uma por uma, lágrimas escorrendo em minhas bochechas, engolindo os soluços.
Louco ou o que? Eu ficava pasma comigo a cada pílula que tomava, mas isso
não era encenação, era real. Eu já tinha escrito meu bilhete. Eu não lembro
muito o que dizia, mas meu pai disse que não era com pena de mim mesma ou
culpando os outros. Era só: "Eu não gosto da escola, não gosto dos meus
amigos, odeio meu pai e ele não me entende. É melhor eu me livrar de mim
mesma."
Eu subi pra cama de cima, onde eu sempre dormia, e deitei pensando é isso,
acabou. A qualquer momento agora eu vou morrer. Isso é ótimo, vou fechar
meus olhos. E aos poucos fui perdendo a consciência...
Só que nessa noite minha mãe teve uma intensa dor de cabeça - graças a Deus.
Ela procurou os comprimidos no armário e todos tinham sumido, então ela veio
direto pro meu quarto e disse:"Melanie, você está bem?"
"Não, mãe", eu disse, "Me sinto doente. Tomei alguns comprimidos."
A próxima coisa que me lembro é ser literalmente puxada da cama pela gola do
meu pijama, meio inconsciente,levada pelas escadas pela minha mãe em pânico
e gritando, e numa ambulância,enquanto meu pai gritava: "Tirem ela dessa
casa! Ela está louca! Não deixem ela voltar até ela estar normal!" Eu
vomitei todo o caminho ao hospital, e quando cheguei lá, lembro de ter esse
tubo enfiado na minha garganta, SOCADO, me forçando a vomitar novamente. Eu
pus pra fora pílula por pílula. Acho que meu pai não estava lá, mas minha
mãe estava na ponta da cama dizendo: "Por que você fez isso? Como você
pôde?" Eu meio que lembro de bater numa das enfermeiras também. O que há
entre mim e as enfermeiras?
Depois, acordei e vi todos os meus professores ao meu redor - e isso me
assustou. Eu pensei: "O que diabos?" e me virei e voltei a dormir, na
esperança que eles sumissem.
A coisa mais estranha foi que ,quando voltei a escola, umas 2 semanas
depois, não era comentado. Todos os professores estavam tipo "Sabemos o que
aconteceu com você, Melanie, mas ssshhh!!" Era muito esquisito. Ninguém
falava sobre isso e eu não entedia o porquê. Eu fui ao psicólogo algumas
vezes sozinha. Não adiantou porque eu estava naquela idade de dar respostas
curtas, tipo "Bem, eu só me odiava e quis fazer isso". Ninguém se importou
em analisar. Acho que meus pais estavam muito assustados pra olhar a fundo.
O incidente foi silenciado por todos, e inevitavelmente eu fiz o mesmo. Só
recentemente comecei a falar sobre isso. Interessantemente, a primeira vez
que olhei a fundo pra isso, minha infecção ocular começou instantaneamente.
É difícil dizer o porquê, talvez não tenha nada a ver, mas acho que pode ser
porque guardei isso por tanto tempo que soltar causou uma reação física.
Deixa eu explicar. Não havia uma razão profunda e tal pra tomar a overdose.
Eu não fui abusada, espancada ou mal tratada. Eu só queria escapar. Era só
raiva adolescente, do tipo que todos experimentam. Ninguém me entendia, eu
fiquei puta com isso, ninguém estava no meu nível, eu tinha muitas perguntas
que ninguém respondia, o mundo era chato - nada acontecia. "Cala a boca!" ou
"Para de falar besteira!" eram as únicas respostas que eu tinha para as
minhas perguntas.
Meu pai realmente pensou que eu estava enlouquecendo. Eu acho que ele não
podia compreender porque sua filha poderia fazer algo assim com ela mesma.
Em vez de tentar entender, ele só considerou como algo feito por alguém
mentalmente doente. Na mente dele, não poderia haver nenhuma outra razão.
"Você não pode estar infeliz, você está maluca."
Minha mãe estava arrasada. Ela pediu pra ver um médico e não conseguia parar
de chorar. Ele a acalmou um pouco. "Você tem noção q muitos adolescentes
fazem isso? Muitos! Eu te garanto que ela não fará isso de novo", ele disse
a ela. Ele estava certo.
Eu sei que meus pais ainda carregam a culpa e o fardo da minha overdose.
Agora que estou mais velha, eu não os culpo por isso. Só lamento que eles
não tentaram falar comigo sobre isso depois. Todos esconderam como se nunca
tivesse ocorrido, e eu também. A vida continuou. Eu nem pensei mais daquela
forma novamente. Eu era basicamente uma pessoa positiva. Não era uma criança
clinicamente depressiva ou com problemas psicológicos ruins. Foi só uma fase
pela qual passei.
A coisa toda ficou mais na cabeça dos meus pais que na minha. Quero dizer a
eles: Não foi culpa de vocês. Claro que tinha algo a ver com vocês, mas
vocês não são a razão pra eu ter feito aquilo. Eu estava infeliz comigo.
Sim, vocês podiam ter ajudado, mas no final eu ainda teria feito o que fiz.
Mas eles se sentem pura culpa. É compreensível, na verdade.
O conselho que dou a alguém que se sente como me senti aos 14 anos é
reconhecer seus sentimentos, depois tentar colocá-los de lado e continuar.
Tente lembrar como você se sentia antes de ficar deprimido e segure esses
sentimentos. Não segure na sua tristeza,se mantenha ocupado e tente se
manter o mais são possível. Não vai durar pra sempre. Mesmo que pareça que
todo seu mundo está caindo e que você nunca poderá reconstruí-lo, você tem
que acreditar que tudo vai dar certo no final. Sempre dá.
Tomar uma overdose foi um momento de virada pra mim porque quando você passa
por algo assim e vê o outro lado, você nunca mais se deixará ficar daquele
jeito, não importa o que aconteça. Eu aprendi o valor próprio depois disso,
só perdendo tudo e ficando com nada. Então mesmo sendo algo ruim, algo bom
veio disso. Por um lado, acho que fui muito estúpida, mas eu não seria a
pessoa que sou hoje se não tivesse feito isso, porque tudo que acontece na
minha vida forma minha personalidade. Mas muitas pessoas não retornam de uma
overdose e eu tive sorte. Eu podia facilmente ter morrido e esse é um
pensamento assustador.
Sei agora que nada é tão sério que valha a pena arriscar sua vida, mas eu
estava tão pra baixo na época que não conseguia imaginar o que havia no
futuro pra mim, não sabia que havia tanto a ver e fazer. Se eu soubesse como
minha vida seria, eu nunca teria corrido o risco. Eu não percebi que o que
eu sentia era só uma fase passageira, um estado de mente que você pode sair,
em vez de se deixar engolir por ele. Eu tinha uma visão limitada e era muito
absorta em mim mesma. Somente agora que eu penso, Deus, eu poderia ter
morrido e teria perdido tudo isso.
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