Se você falasse com meus professores, eles te diriam que eu era uma rebelde na escola sem mencionar que eu conseguia fazer duas coisas ao mesmo tempo. Eu podia sentar lá fofocando e ouvir a aula ao mesmo tempo. Se o professor perguntasse: "Melanie, o que eu acabei de falar?", eu era capaz de responder com exatidão. "Certo, er...ENtão para de falar",ele falaria, voltando à matéria.


Intake HIgh School, onde eu comecei aos 13 anos, era no meio de uma área barra pesada. Eu fui pra lá porque ela oferecia dança, teatro e música pra uns 30 alunos, e era nisso q eu estava interessada. Eu ia bem na Kirkstall Middle School, mas a maioria das minhas notas caíram na Intake High. Eu ia bem em artes, música, dança e teatro.


Eu amava Inglês. Eu tinha uma grande imaginação e era ótima em escrever histórias. E no resto... eu gostava de ler mas nunca curti Matemática. História me fascinava. Ciências também, principalmente quando fazíamos experiências e eu explodia tubos de ensaio e colocava fogo nas coisas. Tirando isso, as aulas eram chatas.
Eu passava muito do meu tempo livro na sala de música tocando bateria. Você tinha que agendar a bateria antes e ficar lá no seu tempo. Uma vez cheguei numa sessão e encontrei uma garota lá, praticando uma batida complexa. Eu esperei ela terminar, mas ela continuou tocando. Ela estava tomando meu tempo! Bem, eu queria tanto tocar que bati na cabeça dela com minhas baquetas. "Sai da bateria agora,é a minha vez!" Claro q ela não conseguiu resistir e me bateu de volta e em segundos estávamos numa briga de baquetas no corredor. Quando acabou, eu tinha perdido todo o meu horário de tocar.


No meu primeiro dia no Intake High, eu cruzei com Rebecca Callard, que eu conhecia vagamente de Jean Pearce. Nos demos bem imediatamente e ficamos melhores amigas. (Sherrel e eu ficamos em grupos diferentes mas ainda éramos boas amigas, quase como irmãs). Rebecca e eu definitivamente somos alma gêmeas. Desde o início parecia q uma sabia o q a outra estava pensando e nossas vidas seguiam um padrão similar.

 
Nós não temos o tipo de amizade de se ligar todos os dias, mas estamos sempre lá uma pela outra quando há uma crise. Estamos totalmente no mesmo patamar e sempre foi assim. É quase como se nos conhecêssemos de uma vida passada - ou muitas vidas passadas. Há uma conexão muito forte entre nós.


Rebecca era pequena e linda, como uma bonequinha, com um cabelo cacheado castanho adorável. A primeira coisa q notamos uma na outra era que as duas tinham o cabelo solto com um clip de um lado. Era um sinal! Depois disso, nós nos ligávamos de manhã pra saber como usaríamos o cabelo naquele dia. Nós duas éramos geminianas. Coincidência! Logo ficamos grudadas.


Como você estaria a cada dia era algo importante. Nosso uniforme era um agasalho com gola em V vinho e uma gravata listrada combinando, camiseta branca e saia ou calça preta. Eu usava calça na maioria das vezes, apesar que passei por uma fase de saias curtas. Como era uma escola de artes performáticas, você podia se expressar um pouco. Eu lembro de usar batom laranja florescente com contorno preto e uma jaqueta de brim laranja em cima do meu agasalho vermelho. Isso não era nada comparado a algumas das outras. Tinha uma garota da minha sala que parecia a Tina Turner, ela devia usar uma lata de spray de cabelo por dia. O cabelo dela era bem punky e eu fico surpresa que não implicavam tanto com ela. Se bem que ela parecia durona e era durona.


Muitas garotas não gostavam de mim ou da Rebecca e nos rotulavam o tempo todo. Algumas delas ficavam contra Rebecca porque ela tinha aparecido na TV e em filmes como "Scab" e "Will you still love me tomorrow". Quando a mãe dela conseguiu um papel em "Coronation Street", a inveja aumentou. A gente saía com a Sherrel e o grupo dela um pouco - Susan, Deslyn, Nicola, Sarah e Samantha - mas tinha muita besteira tipo "Eu não vou falar com ela" no grupo. Minha parceira de dança (e melhor amiga quando eu e Rebecca brigamos) se chamava Kerry ,ela tinha cabelos ruivos e seios enormes. Ela era alta e sardenta e usava muitos anéis importados. Todos os garotos paqueram ela.


No Natal, eu e Rebecca nos compramos exatamente os mesmos presentes porque nós sempre queríamos as mesmas coisas. Um ano foi um kit de sombra, cheia de rosas, verdes e roxas, outro ano foi o perfume da Benetton. Passamos por uma fase em que não usávamos nenhuma maquiagem, só batom, então nenhum prêmio pra quem adivinhar o que nos demos naquele Natal. Éramos iguais e íamos pra todo lugar juntas.


Quando Rebecca começou a fumar,ela me disse q eu devia experimentar. Eu resisti por anos, mas a curiosidade me venceu no final. A gente escondia nossos cigarros embaixo do pout-pourri da mãe dela e quando ela descobriu, levamos uma bronca. Pra ser honesta, eu não gostava muito e logo parei. Infelizmente eu provei de novo mais tarde e apesar de não fumar muito,é definitivamente um hábito que eu preferia não ter.


Eu gostava das aulas contemporâneas do Sr COnnell. Ele era um professor tipo "Siiiiiinta o movimento em seus braços". De tempos em tempos,ele deixava eu dar a aula. Era ótimo. Eu pude tentar algo novo e mandar em todo mundo de uma vez só.


Quando eu desloquei a rótula do meu joelho na aula do Sr COnnell e uma ambulância chegou pra me levar, eu estava naquela idade em que tudo que você se preocupa é parecer descolada. Isso não era fácil enquanto eu gritava aos para-médicos: "Só acerta ela!Agora!" ou depois quando eu manquei pelo pátio na minha mini saia, com gesso na minha perna (nós chamamos de "pots" no Norte). Eu ainda podia fazer os splits. Coincidentemente Rebecca deslocou a rótula dela algumas semanas depois de eu machucar a minha. (Outro sinal!). A mãe da Rebecca e a minha tinham valores parecidos e nós não podíamos sair muito quando tínhamos 14anos - nunca durante a semana e ocasionalmente pra festas. Nós só lembramos de ir pra uma festa na época. Acho que nos deixaram ir porque as duas estavam com gesso - e você não pode levantar muito com a perna machucada, ou então foi isso q nossas mães pensaram. Chegamos na festa com roupas combinando (combinado dias antes,claro).

Como uma homenagem a Neneh Cherry, eu usei uma blusa preta com listras - a da Rebecca era verde limão - e calças esportivas. Nos meus pés tinham tênis azuis Travel Fox, Rebecca usava Filas verdes com cadarços laranja. Legal, cara. As duas tinham o cabelo pra cima como abacaxis, com cachos cuidadosamente caídos pra baixo.


Você provavelmente adivinhou que foi nessa época que o clip da Neneh CHerry, "Buffalo Stance", saiu! Rebecca também era uma grande fã de Bros e usou uma jaqueta de couro horrível e Grolsh presos nos cadarços do tênis. Eu era mais fã da Neneh Cherry e da Tracy Chapman, e depois Bobby Brown. Eu amava Whitney Houston também. No meu quarto, à noite, eu escrevia todas as palavras das músicas do primeiro álbum da Whitney.


Nós estávamos saindo com gêmeos idênticos na época - Andy Wilkinson (eu) e Tony (Rebecca). Como não podíamos sair muito, íamos muito pra casa deles nas tardes de sábado. Era tudo muito inocente - mãos dadas e tal - nós não éramos o tipo de garotas que você veria beijando garotos atrás do bicicletário.
Voltando a festa - eu não sei onde Andy e Tony estavam,mas nós estávamos na cozinha ounvindo um cara chato,chamado Mark, tagarelar. Ele era tão chato que Rebecca pegou um ovo, encostou na cabeça dele e ameaçou: "Se você falar isso de novo,vou quebrar esse ovo na sua cabeça."
Bem, a resposta era inevitável naquele momento e Mark repetiu. Rebecca quebrou o ovo na cabeça dele. Ele ficou louco.


Eu e Rebecca subimos as escadas, rindo mas desesperadas pra fugir do Mark,enquanto ele perseguia a gente furioso,falando palavrões e gritando como um maníaco,com gema escorrendo pelo seu nariz. Quando ele nos alcançou (não demorou muito), ele puxou nós duas pra baixo pelos cabelos. Isso nos deixou de fora das festas por um tempo.


Quando tirei o gesso,eu tive que fazer fisioterapia. Eu esperava as sessões todo sábado no hospital local de Leeds porque elas eram cheias de jogadores de futebol com seus shortinhos. (Claro que eu fazia questão de vestir o menor dos shorts) Algumas semanas depois, meu pai começou a ir comigo porque ele machucou os joelhos no futebol. Isso acabou com minhas chances de flertes, infelizmente.


Intake High era bastante conhecido por seus musicais,mas eu e Rebecca nunca ganhávamos bons papéis. Nós estávamos no coro de "Godspell",cada uma com dois versos pra cantar. Os meus eram: "Você é o sal da terra, você é o sal da terra" e e eu tentava encaixar um "Maltrapilho!" por ali. OS versos de Rebecca eram:"Você é a cidade de Deus, você é a cidade de Deus". Apesar de não fazer muito, tínhamos que ficar no palco o espetáculo todo. Você pode nos ver no vídeo oficial da escola, conversando animadamente no fundo por 90 minutos.


A maioria dos meus professores parecia não conhecer o significado da palavra apoio. Um professor era de Birmingham. Ele me disse que eu nunca chegaria a lugar nenhum porque falava muito alto. "Você está destinada a nada, Melanie Brown!",outro professor disse. Eu precisava ser encorajada, não posta pra baixo,se eu quisesse me dar bem. É uma pena q eu não era. Minha mãe era a única pessoa q dizia: "Vá e faça algo de você mesma. Você pode." Ela sempre acreditou em mim.


Eu estava convencida de q um professor pegava no meu pé, então minha mãe o confrontou na reunião de pais. Assim que ela sentou e ele viu o nome dela no crachá, ele sentou na cadeira e suspirou: "Oh, Melanie Brown!"


"Melanie acha que você pega no pé dela",disse minha mãe,"Você sempre grita com ela mesmo quando não é ela que está causando problemas. Ela disse que sempre que você entra na sala você briga com ela e põe ela pra fora."


Ele pensou por uns minutos e disse:"Eu não posso evitar. Como professor, você automaticamente grita com a criança escandalosa, aquela que você pode ouvir do corredor. Mandar a mais escandalosa pra fora cala os outros. Infelizmente, Melanie é sempre a mais escandalosa. Nesse respeito pode parecer que eu pego no pé dela..."


Ele tinha um ponto, mas ainda era injusto comigo.
Eu não achei minha adolescência fácil. Enquanto eu amadurecia,comecei a me sentir mais e mais excluída. Eu suponho que fosse o sentimento usual da adolescência - sentir-se totalmente sozinho, incompreendido e isolado, ninguém respondendo minhas perguntas ou pra me ajudar a enfrentar as enormes mudanças que te preparam pra vida adulta. Seus pais não se comunicam de fato com você, a não ser dizendo: "Coma seu jantar!" e "Lave a louça!" A vida parecia muito chata e sem sentido.


Eu me sentia desconectada. Eu não podia aceitar que ficar sozinha com seus pensamentos era parte da vida. Agora eu entendo que você pode dividir seus pensamentos e sentimentos com alguém, você pode se explicar ao máximo,mas no fim das contas mesmo quando você tem alguém no mesmo nível que você, você ainda está sozinho com o que pensa e sente.


Eu ainda estava fazendo inúmeras perguntas. "Onde estaríamos se não estivéssemos aqui?", "E se quiséssemos morar na lua?", "Como eu pego uma estrela?", "Existe um mundo diferente em algum lugar?", "O que acontece quando morremos e pra onde vamos?". A resposta universal era:"Cala a boca!"
Quando mais velha e complicada eu ficava,menos atenção eu recebia,em parte porque eu tinha uma irmã mais nova. Danielle e eu tínhamos essa relação de amor e ódio, essa tensão de irmãs. Ela me enlouquecia. Ela estava sempre na minha porta dizendo:"Eu vou te fazer levar bronca, Melanie!"
 

Eu também não era muito legal com ela. Eu a estrangulava, dava queimaduras chinesas e a amarrava em cadeiras. Minha mãe tinha que arrumar babás, mesmo quando eu já tinha idade suficiente pra cuidar da Danielle. A babá era mais um guarda costas que uma babá. Eu me encrencava muitas vezes e tinha que subornar Danielle pra ela não contar pro papai. Você não podia contar nada pra ele com medo de ser punida.


Nessa época, eu estava sempre de castigo, o que significava que eu não podia receber amigos, ver TV no quarto, falar no telefone e tinha que ir direto pro meu quarto depois do chá e ficar lá. Sozinha no meu quarto eu escrevia, escrevia e escrevia - coisas pesadas e intensas. Quando você lê agora,é bem inteligente,mas parece um pouco que você está viajando.

 
Eu tenho todos os meus diários antigos,de quando eu tinha 12 anos até hoje,e ainda escrevo como me sinto quando tenho vontade. É uma boa maneira de expressar seus pensamentos íntimos,entender sua cabeça e começar a se compreender.


Eu passava muito tempo naquele quarto. Enquanto eu crescia,eu fui devagar mas com certeza excluída dos acontecimentos adultos. Eu era mandada pra cama quando amigos vinham ver meus pais à noite, o que era chato porque quando eu era mais jovem,eu podia participar. Agora, porque eu entendia bem mais, eu não era convidada. Eu não gostava. Eu sou adulta, eu pensava, mas eles me tratam como criança. Só aumentava meu sentimento de isolamento.


Eu sei que meu pai me amava, mas na época ele não demonstrava. Ele não expressava suas emoções, pelo que eu podia ver. Era só:"Não faça isso,não faça aquilo, você está de castigo!" As regras se multiplicavam, ele ficava mais rígido a cada minuto. Eu constantemente me pegava cantarolando Eu te odeio, Eu te odeio. Eu tinha muitos sentimentos controversos por ele,porque por mais q eu o odiasse,eu o amava também, é óbvio. Ele era meu pai.


Às vezes eu sentia muito por ele. Eu chorava horrores quando via, pela janela,ele indo de bicicleta pra fábrica na chuva ou na neve. "Meu pai tem que pedalar 40minutos pro trabalho", eu chorava com pena.


Como meu pai, minha mãe estava trabalhando bastante. Ela teve o mesmo emprego na C&A por 18 anos, e também fazia trabalho extra pra pagar pelas aulas de dança minha e da Danielle, limpando banheiros na casa de velhos. Ela dizia que valia a pena, porque dançar nos cansava e nos mantinha fora de problemas, mas significava que era não estava tanto por perto quanto gostaríamos. Quando ela estava, ela estava sempre cansada.


Pra piorar, eu briguei com Rebecca no meu segundo ano no Intake High. Foram as garotas implicando com ela q começaram. Alguém me fez falar grosserias pra ela no banheiro nenhuma de nós consegue lembrar bem o que foi e isso realmente a chateou.
 

"Como você pode dizer isso, Melanie?", ela gritou, me empurrando com força na parede. Eu estava chocada. Já tínhamos discutido antes,mas nunca tinha sido físico. É isso. Eu não falo mais com você!", eu gritei de volta e fui embora.Não nos falamos por 7meses depois disso.Era horrível e depressivo,mas éramos muito orgulhosas pra voltar atrás.


Umas semanas depois eu me meti em confusão na escola. Eu tenho vergonha do que fiz até hoje. Algumas outras garotas e eu escrevemos uma carta obscena e mandamos pra esse garoto esquisito que víamos por lá. Ele tinha necessidades especiais e achava difícil se encaixar lá, então era particularmente errado implicarmos com ele. Acho que percebemos sua vulnerabilidade e tiramos vantagem disso. Crianças podem ser tão cruéis. Algumas das piores coisas que uma pessoa pode fazer são feitas na escola. É lá que distinguimos certo de errado e testamos nossos limites morais, acho, mas ainda me sinto culpada pelas coisas que colocamos naquela carta.


Bem, um professor a encontrou e confiscou e nos mandou pra casa. Foi tão ruim q o diretor até pensou em nos expulsar.Eu estava em pânico. O q meu pai ia dizer? tarde, meus pais foram chamados na escola. Meu pai teve q trocar turnos no último minuto e minha mãe teve a tarde de folga no trabalho. Podia ter sido bem pior.


Meu pai estava tão, tão bravo quando voltou pra casa. "Você pode imaginar a gente lendo essas sujeiras na frente dos seus professores?", ele me perguntou repetidamente. Ele ficou nisso o tempo todo. Eu abaixei a cabeça com vergonha. Eu não tinha nada a dizer em minha defesa. Fiquei um mês de castigo.


Eu nunca tinha ficado em problemas assim antes e eu temia encarar todo mundo na escola. Presa em casa, eu sentia pena de mim mesma e comecei um espiral pra baixo de depressão. Logo eu me vi num ponto em que não via razão pra continuar.


Eu não sei de onde veio a idéia da overdose. Eu só sei que a planejei 2 ou 3 semanas antes. Meu pai faria as compras numa sexta - quando ele recebia o salário e a geladeira estava vazia - e ele sempre trazia Anadin ou paracetamol. Essa sexta ele trouxe Anadin Plus,a versão mais forte.

 
(Eu não sabia na época, mas depois descobri que pílulas pra dor de cabeça são a pior coisa com que você poderia tentar se matar. Elas fazem seu interior sangrar e é uma morte terrivelmente lenta e dolorosa). Eu tive que planejar porque ia ser estranho se eu pegasse todo o Anadin do armário de uma vez. Eu pegava um pouco por vez e naquela sexta peguei o pacote todo, pra juntar com as partes que eu já tinha guardado.


Eu tinha 14 anos. Eu me sentia incompreendida. Eu queria escapar do meu quarto, daquela casa, daquela família, do mundo e da vida. Eu não me desgostava, eu só pensava Esse lugar seria tão melhor sem mim porque tudo que eu pareço causar são problemas, chateações e caos. Eu achei que ia dar sossego a todos se não estivesse ali. Eu queria me libertar. Eu me sentia um alien. Eu não achava que meus pais ficariam tristes quando eu me fosse. Bem, talvez bem lá no fundo eu achasse, mas eu não reconhecia isso até recentemente. Eu bloqueei tudo por anos.


O que eu mais lembro da overdose foi me olhar no espelho, tomar as pílulas uma por uma, lágrimas escorrendo em minhas bochechas, engolindo os soluços. Louco ou o que? Eu ficava pasma comigo a cada pílula que tomava, mas isso não era encenação, era real. Eu já tinha escrito meu bilhete. Eu não lembro muito o que dizia, mas meu pai disse que não era com pena de mim mesma ou culpando os outros. Era só: "Eu não gosto da escola, não gosto dos meus amigos, odeio meu pai e ele não me entende. É melhor eu me livrar de mim mesma."

 
Eu subi pra cama de cima, onde eu sempre dormia, e deitei pensando é isso, acabou. A qualquer momento agora eu vou morrer. Isso é ótimo, vou fechar meus olhos. E aos poucos fui perdendo a consciência...
Só que nessa noite minha mãe teve uma intensa dor de cabeça - graças a Deus. Ela procurou os comprimidos no armário e todos tinham sumido, então ela veio direto pro meu quarto e disse:"Melanie, você está bem?"
"Não, mãe", eu disse, "Me sinto doente. Tomei alguns comprimidos."

 
A próxima coisa que me lembro é ser literalmente puxada da cama pela gola do meu pijama, meio inconsciente,levada pelas escadas pela minha mãe em pânico e gritando, e numa ambulância,enquanto meu pai gritava: "Tirem ela dessa casa! Ela está louca! Não deixem ela voltar até ela estar normal!" Eu vomitei todo o caminho ao hospital, e quando cheguei lá, lembro de ter esse tubo enfiado na minha garganta, SOCADO, me forçando a vomitar novamente. Eu pus pra fora pílula por pílula. Acho que meu pai não estava lá, mas minha mãe estava na ponta da cama dizendo: "Por que você fez isso? Como você pôde?" Eu meio que lembro de bater numa das enfermeiras também. O que há entre mim e as enfermeiras?


Depois, acordei e vi todos os meus professores ao meu redor - e isso me assustou. Eu pensei: "O que diabos?" e me virei e voltei a dormir, na esperança que eles sumissem.
A coisa mais estranha foi que ,quando voltei a escola, umas 2 semanas depois, não era comentado. Todos os professores estavam tipo "Sabemos o que aconteceu com você, Melanie, mas ssshhh!!" Era muito esquisito. Ninguém falava sobre isso e eu não entedia o porquê. Eu fui ao psicólogo algumas vezes sozinha. Não adiantou porque eu estava naquela idade de dar respostas curtas, tipo "Bem, eu só me odiava e quis fazer isso". Ninguém se importou em analisar. Acho que meus pais estavam muito assustados pra olhar a fundo. O incidente foi silenciado por todos, e inevitavelmente eu fiz o mesmo. Só recentemente comecei a falar sobre isso. Interessantemente, a primeira vez que olhei a fundo pra isso, minha infecção ocular começou instantaneamente. É difícil dizer o porquê, talvez não tenha nada a ver, mas acho que pode ser porque guardei isso por tanto tempo que soltar causou uma reação física.


Deixa eu explicar. Não havia uma razão profunda e tal pra tomar a overdose. Eu não fui abusada, espancada ou mal tratada. Eu só queria escapar. Era só raiva adolescente, do tipo que todos experimentam. Ninguém me entendia, eu fiquei puta com isso, ninguém estava no meu nível, eu tinha muitas perguntas que ninguém respondia, o mundo era chato - nada acontecia. "Cala a boca!" ou "Para de falar besteira!" eram as únicas respostas que eu tinha para as minhas perguntas.


Meu pai realmente pensou que eu estava enlouquecendo. Eu acho que ele não podia compreender porque sua filha poderia fazer algo assim com ela mesma. Em vez de tentar entender, ele só considerou como algo feito por alguém mentalmente doente. Na mente dele, não poderia haver nenhuma outra razão. "Você não pode estar infeliz, você está maluca."


Minha mãe estava arrasada. Ela pediu pra ver um médico e não conseguia parar de chorar. Ele a acalmou um pouco. "Você tem noção q muitos adolescentes fazem isso? Muitos! Eu te garanto que ela não fará isso de novo", ele disse a ela. Ele estava certo.


Eu sei que meus pais ainda carregam a culpa e o fardo da minha overdose. Agora que estou mais velha, eu não os culpo por isso. Só lamento que eles não tentaram falar comigo sobre isso depois. Todos esconderam como se nunca tivesse ocorrido, e eu também. A vida continuou. Eu nem pensei mais daquela forma novamente. Eu era basicamente uma pessoa positiva. Não era uma criança clinicamente depressiva ou com problemas psicológicos ruins. Foi só uma fase pela qual passei.


A coisa toda ficou mais na cabeça dos meus pais que na minha. Quero dizer a eles: Não foi culpa de vocês. Claro que tinha algo a ver com vocês, mas vocês não são a razão pra eu ter feito aquilo. Eu estava infeliz comigo. Sim, vocês podiam ter ajudado, mas no final eu ainda teria feito o que fiz. Mas eles se sentem pura culpa. É compreensível, na verdade.


O conselho que dou a alguém que se sente como me senti aos 14 anos é reconhecer seus sentimentos, depois tentar colocá-los de lado e continuar. Tente lembrar como você se sentia antes de ficar deprimido e segure esses sentimentos. Não segure na sua tristeza,se mantenha ocupado e tente se manter o mais são possível. Não vai durar pra sempre. Mesmo que pareça que todo seu mundo está caindo e que você nunca poderá reconstruí-lo, você tem que acreditar que tudo vai dar certo no final. Sempre dá.

 
Tomar uma overdose foi um momento de virada pra mim porque quando você passa por algo assim e vê o outro lado, você nunca mais se deixará ficar daquele jeito, não importa o que aconteça. Eu aprendi o valor próprio depois disso, só perdendo tudo e ficando com nada. Então mesmo sendo algo ruim, algo bom veio disso. Por um lado, acho que fui muito estúpida, mas eu não seria a pessoa que sou hoje se não tivesse feito isso, porque tudo que acontece na minha vida forma minha personalidade. Mas muitas pessoas não retornam de uma overdose e eu tive sorte. Eu podia facilmente ter morrido e esse é um pensamento assustador.


Sei agora que nada é tão sério que valha a pena arriscar sua vida, mas eu estava tão pra baixo na época que não conseguia imaginar o que havia no futuro pra mim, não sabia que havia tanto a ver e fazer. Se eu soubesse como minha vida seria, eu nunca teria corrido o risco. Eu não percebi que o que eu sentia era só uma fase passageira, um estado de mente que você pode sair, em vez de se deixar engolir por ele. Eu tinha uma visão limitada e era muito absorta em mim mesma. Somente agora que eu penso, Deus, eu poderia ter morrido e teria perdido tudo isso.