Sim, milagres acontecem. Não apenas a escola de dança me cansava, mas eu também amava. Na Jean Pearce School of Dance (um porão frio e precário numa casa sem aquecedor), eu comecei uma feliz jornada no sapateado, balé, jazz e dança moderna.


Desde o início, a Sra Wood, que ensinava e tocava piano, gritava: "Aquela garota. Falando. Aquela garota!" (Sim, eu!) Ela era o tipo de mulher mais velha q usava vestidinhos floridos e óculos - ela se vestia para o chá de um vigário, mas era uma coreógrafa fantástica. Seu nome de palco era Jean Pearce e no tempo dela, ela era uma grande professora. Ela era conhecida por ter coreografado todos os programas de TV "Junior Showtime", onde as irmãs Nolan ficaram famosas.


Nós tínhamos medo dela. Ela era uma louca, realmente motivada. Ela trabalhava sem parar.
Ela mostrava pra classe um passo e dizia: "Se você não consegue aprender, vai pro fundo" Ela tinha um misterioso jeito de sentir quem estava errando atrás dela, enquanto ela tocava piano. Isso te fazia aprender rápido.


Na verdade, ela estava nos preparando para testes,apesar q não percebíamos isso na época. Em testes de dança vão te mostrar uma coreografia 2 ou 3 vezes, e você não pegar, você está fora, não importa o quão bonita você seja ou quão bem você dance. Não havia ponto em te contratar se você não aprendia rápido.
No meu ponto de vista era uma coisa que a Sra Wood tinha a mais do que as outras escolas de dançam como a Mullen's e a Doreen Bird (pra onde a Mel C foi). Ela te ensinava a aprender uma coreografia em poucos minutos. Ela forçava sua mente a trabalhar o tempo todo, o que era um desafio ótimo. As aulas dela não eram extremamente lotadas, mas eram tão interessantes que ninguém nunca deixava de ir. Você nunca fazia a mesma coisa 2 vezes. E os dançarinos da Sra Wood sempre passavam nos exames de balé porque ela era muito boa na técnica de ensino.


Ela inspirava respeito. Apesar de ela te maltratar até o ponto de você chorar e odiá-la, você ainda queria voltar e provar a ela que você conseguia.

 
Você nunca seria rude ou mandaria ela se f****, porque ela fazia você se sentir muito bem quando você acertava. Quando uma competição se aproximava, ela dava aulas particulares no andar de cima, no sótão dela com o aquecedor ligado. Às vezes a assistente dela, Jennifer, dava as aulas. Jennifer era uma ótima e expressiva professora, com muita energia e um batom pêssego lindo.


A Sra Wood era uma excelente motivadora e surpreendentemente inconvencional, pois nos deixava trazer nossas próprias músicas e tocá-las no piano. Todas as nossas coreografias eram um pouco estranhas. Elas não eram coreografias de balé usuais porque elas tinham um pouco de jazz nelas. Em pouco tempo eu estava indo a Jean Pearce 3 vezes por semana, incluindo uma aula de 2 horas e meia aos sábados de manhã. Era tudo pago pelos trabalhos extras da Mamãe. Enquanto ela trabalhava, eu brincava - é isso que as mães fazem pelos filhos.


A maioria das outras crianças tinha aulas particulares toda semana, mas minha mãe só podia pagar as principais e ocasionais aulas particulares. "Se você quer ser tão boa quanto as outras,"-ela disse, "você vai ter que dar aulas particulares a si mesma no seu quarto, na frente do espelho". Então eu praticava sem parar em casa.Eu trabalhava duro, como meus pais tinham me ensinado,mas até eles estavam chocados com minha determinação em melhorar.


Eu não deixei Jean Pearce até ir pra faculdade de dança. Eu conheci minhas 3 melhores amigas de infância lá - Charlotte, Rebecca e Carly. Charlotte e Rebecca são minhas melhores amigas até hoje.
Charlotte é ainda igual ao que era na época - pequena, extrovertida e animada. Ela não é seu estereótipo de loira,ela julga personalidades muito bem e tem coragem. Ninguém podia dizer a ela o que fazer quando ela era criança.


Charlotte tinha uma irmã mais velha chamada Lisa, que era uma das garotas "grandes" de Jean Pearce. Eu idolatrava Lisa e sua amiga Jodie. Quando elas trouxeram latinhas de doces do Japão pra Carly e eu depois de um trabalho num cruzeiro, nos sentimos tão especiais.


Significava que éramos as favoritas delas. Lisa era loira e amável. Eu queria ser como ela, uma grande dançarina com pernas longas e cabelos loiros, apesar de que eu sabia que nunca seria loira, óbvio. (Bem, não até eu ficar loira de cabelos lisos pra meu primeiro "This is my moment". Eba! Eu consegui no final.)


Pra mim, Carly era perfeita. Nos demos bem assim que nos conhecemos. Depois os pais dela costumavam me levar nos jantares de domingo, em feriados e até nas férias com eles. Eles meio que me adotaram por um tempo. Eles tinham uma casa enorme que era um paraíso porque eu podia fazer 10 estrelas pelo corredor deles. Minha mãe tinha sabonete, desodorante e um vidro de perfume, mas a mesinha da mãe da Carly era lotada de produtos. Acho que foi por aí que comecei a adquirir minha obsessão por produtos de banheiro.


Eu era horrível com minha mãe porque eu perguntava: "Por que não temos uma casa como eles tem? Eu não quero mais morar aqui, quero morar na casa da Carly" Por outro lado, Carly era louca pra vir pra minha casa, porque era uma bagunça. Tinha comida voando por todo lugar e a hora de dormir era caótica, e a casa parecia mínima com todos saindo e entrando.


A casa da Carly era bem maior. Nós sentávamos pra jantar numa sala enorme. Tinha um banheiro no andar de baixo e Carly tinha seu próprio quarto de se vestir,um armário enorme e um banheiro cinza e pêssego. Ela tinha até um estúdio de dança onde praticávamos nossas coreografias. Éramos muito parecidas fisicamente e fazíamos muitos duetos juntas.


Pra mim, Carly era totalmente "Dinasty" e eu era tão sortuda de experimentar aquilo, senão eu não saberia que uma vida daquele jeito existia, sem ser na TV. Eu também adorava ir pra casa da amiga dela na rua de baixo porque ela tinha portas elétricas na sala de estar. Eu era como se fosse da família,mas Carly era da escola particular, então eu entrava e saía da vida dela.
Toda temporada tinha competições de dança para mudar de nível, principalmente em escolas.

Eu achava muito assustador dançar num palco na frente de juízes, além de outros dançarinos, e suas mães, pais e parentes. Eu ficava ansiosa a ponto de passar mal, suando e tremendo no camarim. Acho que é por isso que não fico nervosa antes de performances agora.Eu gastei todo o nervoso dançando nessas competições.


Seu número era chamado antes de você entrar. "E agora temos o número 8, Melanie Brown."Você entrava, tomava sua posição e esperava a música começar.. Nesse momento, seu medo de palco ficava intenso com seu coração disparado.


A sensação de delírio e alívio quando você saía do palco, tendo lembrado de todos os seus passos, era incrível. Era animador entreter uma platéia, mais que animador, na verdade. Era isso. Aos 9 anos, eu descobri q queria fazer isso da minha vida.


No final de cada competição,todos ficavam em fila no palco segurando seu número. Às vezes era uma espera de 10 minutos até os juízes decidirem o resultado, e Charlotte e eu costumávamos derrubar nossos números, pegá-los, derrubá-los de novo, só pra ter algo pra fazer. Quando o vencedor era anunciado, nós suspirávamos dramaticamente, fazendo uma cena exagerada de desespero e desapontamento, pra nos entreter. Se por outro lado, nós ganhássemos, nós engasgávamos e nos olhávamos de forma chocada. Fazíamos muita bagunça.


Se arrumar era ótimo. A sala de preparação normalmente tinha chãos de carvalho, espelhos nas paredes,e muitas mães maquiando suas filhas. Cada escola de dança tinha uma maneira um pouco diferente de maquiar. Na Mullen School of Dance elas colocavam sombras azul e branca,e um ponto vermelho no canto dos olhos pra q eles parecessem maiores. Blush e batom vermelho eram universais, é claro. Você era notada na sua apresentação, então seu cabelo e maquiagem tinham que ser perfeitos.


Sua mãe fazia suas fantasias. No início minha mãe não era boa, mas ela melhorou incrivelmente com o passar dos anos. Se eu precisasse de um chapéu, ela pegava uma caixa de papelão de margarina ou iogurte,encaixava babados, colocava um elástico e-hey presto!-um chapéu.


Por sorte, fantasias e músicas e coreografias eram passadas adiante pelas garotas mais velhas. Uma vez,acabei fazendo uma velha coreografia da Charlotte para "These boots are made for walking", vestindo uma jaqueta bolero azul do World of Dance in Leeds por cima de uma malha vermelha,com meu cabelo puxado pra trás num coque alto e deliberadamente bagunçado.


No fim de cada competição, você levava um pedaço de papel com comentários dos juízes. Você ganhava um certificado e uma medalha se você ficasse em primeiro,segundo ou terceiro. Colecionar medalhas era uma grande obsessão para todos. Eu ainda tenho todas as minhas.


A Sra Woord organizava viagens pra ver shows do West End, como "Cats" e "Miss Saigon" e se uma das garotas "grandes" estivesse em algo, havia um treinador junto para apoiá-la. Lisa foi brilhante em "Cantando na chuva" em Manchester. Todos na minha escola tinham a ambição de estar nos shows de West End - e quase todos eles conseguiram estar nos shows de West End.


Três vezes minha mãe, meu pai, Danielle e eu fomos a Skegness para um festival de dança de uma semana no feriado de Maio. Dançarinos de diferentes escolas se encontravam lá, junto com os pais de todos. A maioria dos pais saía e ficava bêbado, enquanto as mães aprontavam os filhos para as competições. Mas não era só dançar, nos divertíamos muito na praia e passeando também.


As mães de Jean Pearce pegavam uma lista de pousadas antes e tentavam reservar pra todas na mesma. Em Skegness você ficava com as pessoas da sua escola. "Oh, ela é da Mullen's!" "Ela é da Doreen Bird" Havia sempre um pouco de tensão, mas você não via como competição e sim como rivalidade de brincadeira. Toda a experiência era um aumento de confiança pra mim.


Danielle tinha 3 anos na primeira vez que fomos. Ela já tinha começado a dançar e foi escolhida a melhor do festival no final da semana. Ela fez um pequeno solo no fim do show, na frente da prefeita de Skegness. Eu fui chamada pra fazer uma dupla com uma menina chamada Joanne Long - "The lady is a tramp".

 
Nós tínhamos feito a dança algumas vezes antes e eu estava enjoada dela. Eu odiava o vestido horroroso que eu tinha que usar e o considerava muito infantil. Era branco,com laços vermelhos apertados e uma saia frufru. Comecei a reclamar quando nos trocávamos e nos maquiávamos e quando ficamos prontas, decidi que não dançaria, não com aquele vestido.


Joanne começou a chorar horrores, então minha mãe se aproximou. Se eu fizesse a dança uma última vez, nunca mais teria que fazê-la de novo, ela disse. Eu finalmente topei quando ouvi ela falar pra mãe da Joanne q ela teria que achar uma nova parceira pra "Lady is a tramp" no futuro. Como Charlotte, eu não era uma dessas crianças que podia ser mandada fazer coisas assim.


Os campeonatos Miss Dance eram os maiores do circuito da dança (e eu nunca cheguei lá!) Era um evento enorme, que você podia participar quando fazia 18 anos. Eu adorava a salsa que havia quando os jurados saiam, e entrava a nova Miss Dance com uma coroa e uma faixa. Uma garota de cada escola participava e você aparecia no treino às 5 horas da manhã para parabenizar a sua, com um cartão de boa sorte. Éramos como uma grande família. Miss Dance era algo grande e você apoiava e respeitava a sua não importa quem ela fosse.


Eu não me cansava de dançar,então quando minha mãe soube que tinham aulas a noite perto de casa no Sacred Heart, eu implorei pra ela me deixar ir. A mulher que dava aulas se chamava Nadine, uma professora séria mas carinhosa. Ela agora dirige a Northern School of Contemporary Dance em Chapeltown.
Nadine começou cobrando 20p ou 30p a aula. Ela queria começar uma turma infantil, mas ninguém se interessou, então eu pude fazer aulas com os adultos apesar de ter 9 anos quando comecei. Eu era a favorita da Nadine por muito tempo. "Eu gostaria de ter a Melanie na minha faculdade de dança quando eu montá-la", ela disse pra minha mãe. Eu fui ao Sacred Heart 2 vezes por semana por anos. Era brilhante porque dançávamos ao ritmo de bongôs ao vivo.Como era dança contemporânea,nós podíamos ser tão expressivos e criativos quanto quiséssemos.


Eu também adorava atuar,mas as aulas eram muito caras. Quando tínhamos 10 anos, Sherrel e eu tínhamos aulas particulares numa escola de teatro em Headingley por um ano (depois disso minha mãe disse que não podia mais pagar). Então, eu atuava na frente do espelho. Eu me fazia chorar, depois me confortava. "Pare de chorar." Eu dizia numa voz gentil antes de ir pra outro papel - feliz, irritada, chocada, assustada, me elogiando. Eu sentava lá no que pareciam horas, falando sozinha, amando cada minuto.


Durante o feriado de Páscoa, entramos numa competição juntas. Eu fiz um solo - Coco o palhaço - e aí Sherrel e eu fizemos uma cena em que brigávamos feio. No meio da briga uma de nós jogava uma xícara que deveria quebrar no chão. Espertamente, Mamãe arrumou uma xícara de plástico e colou frouxamente com Sellotape, então quando jogávamos, parecia quebrar.


Bernie e minha mãe riam histericamente durante nossa cena, não porque achassem engraçado, mas por nervoso. Bernie ficava em pânico e tensa e no fim da cena ela estava no meio de um ataque e tinha que sair da sala. Algo sempre tinha que acontecer quando aquelas duas estavam juntas. Às vezes eu levava amigos pra casa e as duas se vestiam, embaraçosamente, nas minhas fantasias de dança, coisas como meu vestido de contas Húngaro. Era doloroso pra mim, ver isso! A vida nunca era chata.


Com meu amor por dança e teatro crescendo, meu interesse pela escola começou a cair. Quando eu tinha 9 anos, havia uma crise na profissão de professor e muitas greves loucas atrapalhavam minha vida escolar. Eu tenho muita simpatia por professores e creio que o valor de ensinar é muitas vezes subestimado, mas as greves faziam parecer q eu nunca tinha uma semana inteira no Kirkstall Road Primary, o q não fez muito bem à minha educação.


Meu pai me levava pra treinar pro dia dos esportes. Nos vestíamos em roupas esportivas, dirigíamos até a quadra perto do West Yorkshire Television e jogávamos coisas como futebol. Ele realmente me pressionava, parecia uma cena de "Carruagens de fogo" ou algo assim.

 
"Vai, Melanie, você pode, você consegue!Vai!" Como resultado, eu costumava ganhar tudo no dia dos esportes. Era brilhante.


Por volta dessa época o comportamento do meu pai comigo começou a mudar. Ele sempre havia sido rígido, mas do nada ele fechou o lado emocional/afetuoso que eu levava por garantido e se tornou um grande disciplinador. De repente regras tomaram o lugar dos abraços. Eu só posso especular o motivo disso, porque meu pai nunca me deu uma explicação lógica para a mudança repentina. Eu acho que estava numa idade em q começava a pensar por mim mesma, questionando as decisões dos meus pais e respondendo a eles, então talvez meu pai tivesse uma sensação de estar perdendo o controle - e ele gosta de estar no controle. Minha mãe sugeriu isso, enquanto Danielle e eu crescíamos, ele tinha medo de nos perder.


Ele culpa em parte suas raízes. Ter total respeito por seus pais é parte da cultura dele e era incrustado nele desde novinho, então é claro que ele tentava passar isso pra gente. Ele também temia muito que, se não fosse rígido com a gente, sairíamos dos trilhos e terminaríamos nas esquinas, com os caras e fumando. E mais, ele achava que mamãe era muito mole com a gente e tentava compensar sendo muito controlador. Ele começou a impor todo tipo de regra e regulamento. Não desça a não ser que esteja totalmente vestida. Não comer na sala principal. Dormir numa certa hora, em ponto. Amigos tem que nos chamar do portão e não entrar na casa. E mais e mais.


Você tinha até que lavar a louça de uma maneira específica: garfos e facas antes, depois pratinhos, e aí pratos e finalmente as panelas.

 
Era como estar no exército "Você tem que tomar seu café antes de ir pra escola!" Não parecia que eu tinha que tomar meu café pra me dar força e energia. Era só "Você tem q tomar seu café!" como se assinássemos um contrato de café.


Não havia flexibilidade no mundo dele. Se eu estivesse vendo um filme que terminasse 21h05, eu não podia ficar acordada os 5 minutos extras da minha hora de dormir. Minha mãe sempre tinha que assistir o fim de "Dallas" e "Dinasty" final surpreendente do episódio.


Se eu fizesse algo de errado na frente da minha mãe, ela normalmente ia explodir e me dar uns tapas. Com meu pai nunca havia uma reação espontânea, seria na próxima quarta feira depois da escola, às 18h. "Lembre-se do que você acabou de fazer porque você vai ser punida semana que vem!", ele ameaçava.
A ansiedade era pior que a punição. Eu odiava os dias antes disso. Eu sabia exatamente o que vinha. Eu entrava numa sala silenciosa, me abaixava, apanhava (da mão dele ou um cinto), levantava e saía da sala sem dizer uma palavra. Às vezes ele contava os tapas em voz alta porque se eu fosse malvada duas vezes na semana eu levava dose dupla. Era tão cruel, mas estranhamente prático.


No meio do furacão da vida e trabalho, eu ainda acordo no meio da noite suando e pensando. O que eu tenho que fazer hoje? É o mesmo sentimento de ansiedade que sentia dias antes de apanhar. Eu abria meus olhos, com coração apertado, pensando Eu tenho mais 4/3/2 dias antes de apanhar. Eu morria de medo. Mas às vezes eu era levada de propósito pra conseguir a atenção total do meu pai por alguns minutos.


Tudo que uma garotinha quer é que seu pai diga a ela "Você é fantástica e maravilhosa!" Eu queria que o meu tivesse orgulho de qualquer coisa que eu fosse boa e eu estava constantemente procurando a aprovação dele, mas não consegui até anos depois. (até hoje eu olho pra minha mãe pra segurança e consigo, mas não pergunto pro meu pai sua opinião porque quero que venha dele primeiro. Quando ele me elogia, chego quase a chorar) Infelizmente, enquanto eu crescia, ele ficou muito crítico e raramente me elogiava por qualquer coisa. Ele estava só interessado em educação. Na verdade, obcecado - novamente, o produto de seu passado, acho.


"Você tem que ter As, Bs e Cs em tudo", ele insistia, "Você tem que tirar. Se não, vou parar com suas aulas de dança." Eu estava sempre no limite, pensando:M****, eu não ligo pra educação. Eu só quero dançar.

 
Eu era acima da média na escola, mas não brilhante, e eu sentia o desapontamento dele. Agora ele diz:"Eu devia ter te dado mais apoio na dança, porque foi isso que te fez."


Meus pais raramente concordavam sobre mim. Minha mãe me dizia uma coisa e meu pai outra. Eu dizia: "Não, minha mãe disse que..." e ele dizia: "Bem, o que quer que seu pai diga, vale." Minha mãe fazia uma cara pelas costas dele, como se dissesse: "Não é minha culpa, é ele."


Em contraste, minha mãe era uma molenga. A rigidez do meu pai era um pesadelo pra todas nós, e quando ele não estava, - no turno da noite - não haviam regras, apesar que ela nunca nos deixava ir muito longe.
Ela tinha suas fraquezas também. Nós tínhamos que chupar, não mastigar, nossas fritas enquanto víamos TV. "É irritante quando você tem duas crianças mastigando fritas ao seu redor enquanto você tenta se concentrar!", ela reclamava. Mas ela ainda era mil vezes mais relaxada que meu pai. Íamos pra cama quando estávamos cansadas, não porque éramos obrigadas. Nós fazíamos peças, cantávamos,dançávamos e ríamos muito. Mamãe curtia estar com suas filhas.


Ela achava que os problemas de meu pai vieram da sua infância complicada, e ele não tinha idéia de como lidar com suas filhas crescendo. Colocar controles apertados na gente parecia a opção mais sensata na época, mas era totalmente contraproducente.

Na época, havia muitos asiáticos e negros em Leeds, mas raramente alguém era mestiço. Então muitos não sabiam se chamavam Danielle e eu de "crioulas" ou "branquelas". Era tipo: "Bem, o que vocês são? Vocês tem pele clara, seus olhos são diferentes, vocês tem um nariz europeu, seus lábios não são os estereotipados lábios grossos, seus cabelos são diferentes, o que vocês são?"


"Bem, sou um pouco dos 2. Eu tenho o melhor dos 2 mundos.", eu dizia hesitante, lembrando da explicação da minha mãe.


Minha mãe diz que com Danielle foi pior, porque ela não tinha amigos mestiços, diferente de mim, que tinha a Sherrel. Sherrel e eu parecíamos gêmeas,então pelo menos eu tinha alguém pra me identificar,mas eu ainda era perseguida até em casa do Kirkstall Middle School aos 11 e 12 anos. Literalmente perseguida até em casa, e era uma boa caminhada de uns 15 minutos. As outras crianças queriam me bater por causa da minha cor, mas eu não entendia muito isso na época.


"Por que vocês não podem ir até a escola reclamar?", eu perguntava aos meus pais.
Quando eu chegava em casa, totalmente exausta e sem ar, meu pai dizia: "Não, você luta suas próprias batalhas" e minha mãe "Não, você luta suas próprias batalhas". Eu suponho que isso me ensinou a me defender. Os pais dos outros iam reclamar se seu Tom tivesse um cílio arrancado na escola, mas lá estava eu, correndo pra casa, gritando "Rápido! Fecha a porta agora!", pensando "Por que ninguém me defende?" Eventualmente eu percebi que tinha que fazer eu mesma e desde então eu sempre fiz.


Mas eu acho que se eu fosse uma mãe na mesma situação, eu confrontaria o assunto com a professora ou a diretora. "Bullying" nunca devia ser tolerado. Pra ser justa, hoje em dia, como a anorexia, é um assunto muito mais falado do que no meu tempo de escola.


Eu tive sorte que meus pais eram muito legais sobre raça quando eu crescia. Eles respeitavam a cultura um do outro, e as misturavam e gostavam disso, o que era raro. Eles me ensinaram sempre a respeitar brancos e negros. Eu percebi q crianças mestiças podem ficar muito confusas se seus pais escolhem uma maneira ou a outra, e ficam com preconceito com brancos ou negros, porque ficam alienados de um lado ou outro.
É difícil porque você tem suas comunidades negras e suas comunidades brancas. Tem igrejas de negros, de brancos, judeus, muçulmanos, budistas e outros lugares de adoração, mas você não tem nada oficial pra mestiços.


Eu não estou dizendo que ser mestiço é uma cultura definida e tem uma história - bem, tem uma história mas foi tabu por muito tempo,porque a sociedade sempre foi muito dividida. Por séculos, crianças mestiças eram associadas a estupros, resultados de encontros forçados entre senhoras e escravas nas plantações. Elas eram ignoradas, varridas pra baixo do tapete e parte de uma história esquecida. As coisas mudaram agora. Estamos misturando mais, e temos pessoas q são um quarto disso, um quarto daquilo, metade daquilo, o que é ótimo. O único problema é que tem muitas crianças crescendo que sentem que não pertencem a lugar algum. A identidade deles não é branca ou negra.


Eu tive problemas em saber onde me encaixava às vezes. Eu tinha amigos negros e também amigos brancos, e alguns dos negros ficavam totalmente do lado dos negros, falando mal dos brancos, enquanto que alguns dos brancos ficavam totalmente do lado dos brancos e não sabiam nada da história da cultura negra. Eles não tinham idéia do sofrimento que havia acontecido.


Eu era diferente dos outros mestiços da escola porque eu nunca escolhi um lado. Eu me dava bem com todos e como resultado, eu era chamada de Bounty - negra por fora, branca por dentro. Eu lembro de pensar Por q eles estão me chamando assim? Meus pais tinham amigos brancos e negros e eu passava tempo com a família da minha mãe e com a do meu pai, então minha vida era misturada, até na música q eu ouvia em casa-de Aswad aos Eurythmics.


Quando eu ia pra casa da Vovó Negra, eu limpava toda a louça chique antes de ir ao sótão experimentar as roupas velhas dela. Eu era sua primeira neta e me sentia privilegiada de poder mexer nas coisas velhas dela e do meu pai. Aquele sótão era um quarto cheio de memórias que Vovó não podia se livrar.Ela junta tudo, como eu. Eu tenho tudo de muito tempo atrás no meu sótão também.


Vovó Negra e Vovô moravam numa casa enorme em Chapeltown. Eles tiveram uns hóspedes estranhos lá. Um deles sempre ia lá pra baixo pra beber um gole de brandy.


Eles tinham um quarto no andar de baixo com um pote pra fazer xixi. A razão é que você não podia ir pra cima toda hora que você quisesse fazer xixi de noite. Você fazia no pote e jogava fora de manhã. Eles não achavam nada de estranho nisso. O quarto deles, de frente pra rua,tinha uma mobília chique.Com plásticos cobrindo, é claro.


Vovó adorava religião e rezar. Se você falasse palavrão ou mal de alguém, ela rezava pra você. "Oh meu Deus, abençoe seu coração, glória a Deus!"


Eu tenho muitas memórias felizes sentadas na cozinha deles, vendo TV na televisão quebrada deles,enquanto Vovô aparecia e sumia e Vovó fazia as comidas. Eles tinham papéis bem tradicionais. Na cultura deles, o papel do homem é trazer dinheiro pra casa. No momento q ele entrega pra mulher, o trabalho dele acabou - ela faz todo o resto, de pagar o aluguel a cozinhar, limpar e cuidar das crianças.


Vovô era taxista e sempre tinha um tique no olho. Ele é bonito, sempre elogiado por sua aparência jovem. Até hoje ele é muito chique, quase muito chique e arrumado. Seu cabelo está sempre perfeito. Ele era meio festeiro, um aproveitador da vida, que trabalhava muito e brincava muito. Ele curtia seus dominós no Mandela Centre, e bebia seu whisky, brandy e rum. Ele é um grande falador. Eu ficava sempre encantada por suas histórias.


Vovó era a sensível que gerenciava a casa e cuidava de tudo.Meu pai achava ela intimidadora mas lembro dela rindo muito. Uma manhã eu corri pro quarto dela e pulei na cama enquanto ela e Vovô estavam acordando. Percebi que Vovó ria pra si mesma. "Tão louca!", ela sussurrava, "Você é tão louca!"
Chapeltown é uma pequena comunidade unida. Eu nunca era Melanie, eu era "a neta de Iris e Jim,a filha de Wingrove" (Com certeza Vovó chamava meu pai por seu nome do meio, o sobrenome da mãe dela).


Eu amava ir pra Vovó porque eu podia pegar meu pai e vê-lo em problemas. Ele parecia aterrorizado por sua mãe. Geralmente ele ficava silencioso no ônibus pra casa dela, quase como se se preparasse. Todo o caminho eu pensava "Vou deixar ele em problemas hoje!"


"Você sabe o que meu pai fez?", eu começava. Então eu meio que inventava algo ou exagerava a verdade. Era normalmente algo bobo como "Ele foi na reunião escolar e um dos professores reclamou de mim e ele não me defendeu,mesmo sabendo que eu tirei A na matéria."
"Eu disse Wingrove!",ela chamava, "Venha pra cozinha e se lave!".

 
Atrás da porta da cozinha, ela começava, não só sobre mim mas sobre os temas favoritos dela - a vida e educação dele,e como ela tinha criado-o pra não ser assim com suas filhas e mostrar o caminho. Ela xingava e falava muito rápido,enquanto meu pai ficava na frente dela de cabeça baixa. Eu não entendia uma palavra do que ela falava,eu só achava engraçado, apesar que agora reconheço que deve ter causado muita dor ao meu pai. Era a única falha na armadura dele, porém, a maneira que eu podia devolver a maneira como ele me tratava. Ironicamente, provavelmente só o piorou.


Numa maneira é estranho como ele se tornou um disciplinador. Depois de ter tanta dificuldade com sua própria mãe,e se rebelando contra todas as suas regras e regulações, você pensaria que ele aprendeu a lição e tentaria ser mais relaxado como pai. Ao contrário, ele era tão rígido e sem emoção quanto ela. Eu odiava.