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Eu
fui criada para acreditar que uma das melhores formas de lidar com seus
problemas é rir deles. Senso de humor sempre foi uma grande coisa na minha
família, especialmente por parte de mãe. Minha mãe e as quatro irmãs dela
herdaram o humor do meu Avô, que era hilário, apesar de também ter um lado
cruel.
Vovó Branca (eu sempre a chamei assim) estava geralmente exausta no fim do
dia. Ela costurava em casa e trabalhava sete dias por semana. Vovô era
engenheiro e quando voltava do trabalho, ela estava acabada, jogada no sofá,
com todas as crianças (cinco garotas e dois garotos) pulando nela. Uma
tarde, Vovô, piadista, reuniu as crianças, enrolou um pedaço de papel, pôs
na boca da Vovó, que dormia, e acendeu. Ela só acordou quando as chamas
chegavam em seus lábios. “Oh você é um imbecil!”, ela gritou, “Você vai
fazer dessas crianças uns malucos!”
Minha mãe tinha uns 10 anos quando ela e os outros imploraram pro Vovô
deixá-los ter um coelho de estimação. “Certo”, ele disse, “Vocês podem tê-lo
se prometerem cuidar dele. Vocês devem alimentá-lo e cuidar dele.” Eles
todos disseram que iriam, mas é claro que não cumpriram.
Então uma noite após o jantar – ensopado e batatas – ele perguntou:
“Gostaram do jantar?” Todos disseram que sim, “Sim, papai, estava ótimo!”, e
ele disse: “Bom, porque vocês comeram o coelho.”
Alguns dias antes minha mãe e sua melhor amiga tinham feito vários
sanduíches com cocô de coelho dentro. Elas os colocaram num prato e
cuidadosamente colocaram uns poucos sanduíches com geléia no topo da pilha.
“Fizemos algo pra vocês comerem!”, ela disse pra uma de suas irmãs, que
estava no quarto ao lado com um grupo de amigos. Pegando alguns sanduíches
de geléia para ela mesma, ela deu o resto ao grupo. Posso imaginar seu
sorriso safado ao assistir todos eles comendo fezes de coelho. Era o tipo de
peça que Vovô pregaria.
Lanches surpresa são os favoritos na família da minha mãe. Tia Sheila uma
vez deu para seu marido ração de cachorro e minha mãe fez sanduíches de alho
para meu pai levar pro almoço no passado. Por que comida? Meu chute é que há
uma razão obscura e profunda para isso enterrada num passado distante, mas
talvez eles só fossem todos muito infantis. Culpe o Vovô. Todos o culpam.
Minha mãe e suas irmãs cresceram para serem indivíduos distintos, fortes,
com um brilhante senso de humor. Tia Di, Tia June, Tia Sheila, Tia Pamela e
minha mãe Andrea são todas incrivelmente engraçadas. Elas foram crianças
felizes e sorridentes que se tornaram adultas vivas e risonhas. São o
coração e alma da família.
As histórias da infância delas são contadas sempre, como cantigas de ninar
ou contos de fadas. Uma de minhas favoritas é de quando as crianças jogavam
dardos na sala. Vovô segurava o quadro de dardos na frente de seu rosto e
Tia Sheila estava pensando, levando uma eternidade na vez dela. Finalmente
Vovô levanta o quadro e diz: “Já está pronta?”, e é claro, no mesmo momento
um dardo vai direto em seu pescoço.
“Cacete, Sheila”, ele berrou, “Você quase me matou!”
Eu definitivamente herdei o sendo de humor da família. Por exemplo, nas
férias com um namorado uma vez eu realmente tinha algo em meu olho. “Posso
limpar na sua bermuda?”, perguntei a ele. Quando abaixei, tive uma onda
cerebral e abaixei a bermuda dele até os tornozelos. Eu rio pensando nisso
agora. A melhor parte foi que era na frente de uma praia cheia de gente. Ele
não ficou muito feliz, para dizer o mínimo, mas ele riu no final. Ele teve
que rir.
Minhas tias teriam rido se estivessem lá. Quando elas se juntam não fazem
nada além de se sacanearem. Minha mãe e Tia June falam mal de todos, Tia Di
senta e ouve tudo, Tia Sheila só se cala e Tia Pamela fica esnobe. Esse é
meu rápido resumo delas: Di é a tontinha, Sheila é a sensível, Pamela é a
elegante, minha mãe Andrea é a louca, e June é a que todos chamam Akela.
Ela é a controladora, lutadora e a que todos ligam numa crise.
Elas ainda são como crianças, especialmente minha mãe. Ela é uma criança
completa, constantemente irritando os outros e os animando. Elas raramente
se confrontam, mas elas dizem de tudo pelas costas umas das outras. Há
sempre algo acontecendo entre elas e elas fofocam de forma que vocês não
acreditariam. É pior q parquinho de colégio.
Alguns anos atrás, Tia June começou a ter aulas de francês. O curso
organizava uma viagem para França e ela, estupidamente, convidou minha mãe e
melhor amiga dela, Bernie, e também Tia Pamela e Tia Di. Minha mãe e Bernie
ficaram muito bêbadas e logo pegaram o microfone do guia turístico no ônibus
e gritaram: “Comment t’appelles-tu?” repetidamente. No próximo minuto, elas
abaixaram suas blusas e esfregaram seus seios nas janelas. Tia June estava
enojada, apesar dela só ter ido para estocar bebida e cigarros. Ela nunca
mais conseguiu voltar às suas aulas de francês.
Todo ano, de quando eu era pequena até me juntas às Spice, nós íamos acampar
em Abersoch, Gales. Eram férias fantásticas, absolutamente incríveis. Às
vezes íamos por duas semanas inteiras, ou só nos unir ao resto da família
por uma semana ou um fim de semana longo. Tia June organizava – ela tinha a
caravana e o banheiro portátil, nós tínhamos as tendas. Eram tantos de nós –
toda a família da minha mãe e seus filhos – que ocupávamos mais da metade do
camping.
Eu costumava querer viajar para lá com Tia Sheila e Tio Mick. Eles eram
incrivelmente organizados, com deliciosos lanches embalados para viagem de 4
horas. Tudo era preciso e perfeito, enquanto nosso carro era uma bagunça.
Minha mãe se atrasava e meu pai tinha o costume de esperar todos se
arrumarem e então dizer: “Certo, eu venho em 5 minutos!”, o que era
intensamente irritante. 15 minutos depois e ainda esperávamos.
Tio Mick me deixou voltar com eles uma vez, mas infelizmente eu acabei
vomitando por toda a nuca dele.
Tia June combinava o acampamento e organizava tudo porque ela era a
experiente em acampar – e a elegante com uma caravana.
Toda manhã alguém ia comprar o jornal e pão e outra pessoa ia buscar os
ovos. Então nós sentávamos numa grande mesa de plástico e comíamos um
café-da-manhã do tipo que vc nunca come em casa – ovos fritos, torradas,
feijão, cogumelos, tomates, salsichas, bacon, tudo. Era um café tipicamente
inglês, cozinhado com perfeição.
Sempre parecia fazer calor e às vezes parecia com viajar para fora. As
praias eram adoráveis e sem águas-vivas. Tio Barry costumava enterrar-nos,
os doze primos, até o pescoço na areia e nos deixava lá. Ele levava uma
eternidade. “Eu sou a próxima! Eu sou a próxima!” Nós deitávamos presos por
horas, rindo, amando o fato de que não podíamos nos mover, acenando com a
cabeça loucamente um para o outro: “Olá, como vai?”
Às tardinhas sempre jogávamos rounders (*Nota: jogo inglês similar ao
baseball), depois nos reuníamos para um “karaokê” em volta de uma fogueira
na praia. Todos os adultos ficavam bêbados e terminavam no mar e nós
crianças adorávamos ficar acordados até tarde o suficiente para vê-los
fazendo isso. Como brinde, nós podíamos ir uma vez por semana a Butlins, que
os adultos odiavam mas as crianças amavam.
Tio Barry trabalhava como motorista de bens pesados e ele normalmente trazia
muitos tubos internos, que nós enchíamos e usávamos como bóias. Infelizmente
eles sempre eram levados pelo mar. Começávamos as férias com pelo menos seis
deles e, no fim, todos estariam perdidos. E de vez em quando um escapava e
as tias entravam em pânico, correndo atrás deles sem lembrar de apertarem os
laços de seus biquínis.
Havia infortúnios mais sérios, é claro. Uma de minhas memórias mais antigas
é deitada na almofada na caravana da Tia June com as cortinas fechadas,
sofrendo de uma terrível infecção ocular.
Era um inferno ouvir todos brincando lá fora enquanto eu deitava no escuro
com antibióticos em creme nos meus olhos, esperando as bolhas e o inchaço
diminuírem. Minha visão ficava completamente borrada com aquele creme. Era
horrível. Eu tinha um par terrível de óculos de sol azuis de plástico que eu
deveria suar sempre que fosse lá pra fora.
Os médicos levaram séculos para diagnosticar que era uma forma rara de
conjuntivite. Estourava uma ou duas vezes por ano como um resfriado ruim e
durava uma semana, às vezes mais. Minha mãe dizia: “Essa teia de aranha
entrou no seu olho de novo?” Eu odiava e minha mãe e meu pai relutavam em
pôr creme nos meus olhos enquanto eu gritava horrores. Eu ainda tenho a
mesma infecção quando estou muito estressada. É uma dessas pragas que me
acompanharão pela vida.
Quando eu era um pouco mais velha, era o meu dever levar o lixo até o
depósito. Um ano eu estava correndo com uma lata cheia nos braços quando a
tampa de uma lata de feijão caiu. Eu pisei nela e ela retalhou meu pé, quase
arrancando meu dedo. Eu tive que mancar todo o caminho de volta pelas
montanhas até as tendas, gritando horrores, sangue por toda parte. Meu primo
Barry enfaixou meu pé numa toalha e me levou ao hospital, onde eu
involuntariamente dei um tapa na cara de uma enfermeira quando ela tentou
costurá-lo. Ela fez um bom trabalho, considerando. Minha cicatriz é bem boa.
Mal sabia ela que tinha minha futura carreia nas mãos. Se eu tivesse perdido
meu dedo, provavelmente não teria virado uma dançarina e, subseqüente,
entrado nas Spice Girls.
Eu tinha que ser supervisionada quando eu chegava perto da minha irmã
Danielle depois do dia que a peguei pelas unhas. Quando a maré sobe em
Abersoch deixa crateras profundas – Danielle caiu em uma e eu simplesmente a
deixei lá. “Haha, quero ver sair daí agora!” Ela era cinco anos mais nova
que eu, pequena e linda, mas eu era muito cruel com ela (eu imagino quantos
irmãos e irmãs acabam matando seus irmãos mais novos?).
Foi idéia da Tia June uma mudança de ares. “Eu fui em outro camping e é
fantástico!” Então no ano seguinte mudamos de camping. Foi uma experiência
totalmente diferente. Para chegar à praia você tinha que subir uma montanha
enorme e escalar pedras deslizantes. Quando você chegava, estava esgotado,
então você sentava no meio do vento, sem poder ir ao mar porque estava
agitado. Fantástico! Not!
Um dia minha mãe e Bernie foram ver o dono do camping. Essas duas eram
loucas juntas e amavam excitá-lo. “Oh Dave, sua casa é tão legal!”, Bernie
falava de modo suave, usando uma das mantas do sofá dele na cabeça.
Dave perguntou à minha mãe como ela gostaria do chuveiro (pergunta estranha
– só havia um chuveiro. Você colocava em 10p e teria mais ou menos 30
segundos de água).
“É ótimo, Dave”, disse minha mãe, “mas parece que me trouxe esses grandes
caroços marrons!” e com isso ela levantou a camiseta e mostrou os seios (ela
nega isso completamente, é claro!).
Ele era tão velho que provavelmente não via seios há muito tempo. “Mmm...adoráveis!”,
ele disse apreciando-os e deu às duas Carling Black Label grátis.
Essas viagens eram sempre cheias de diversão e histórias. Eram como uma
série de filmes “Carry on”. Uma noite minha mãe estava alimentando Danielle,
que tinha só seis semanas de idade, quando ouviu esse som pesado vindo da
tenda da Tia Sheila e do Tio Mick, que eles dividiam com Vovó.
Tia Sheila estava dizendo: “É isso. Está duro o suficiente.”
“Não, um pouco mais, só mais um pouco”, Tio Mick ofegante.
“Faz mais rápido, aí você pode acabar antes”, ela sussurrou.
“Estou o mais rápido que posso!”, ele murmurou.
“Continua então, estou morrendo de sono”, ela disse.
“Ainda está um pouco mole, me dê só 5 minutos...”, ele implorou.
Oh meu Deus, pensou minha mãe, eles estão transando e nossa mãe está na
mesma tenda! Os barulhos continuaram por séculos.
“Você ainda não está satisfeito?”, suspirou Tia Sheila finalmente, “Eu quero
ir dormir.”
“Eu não sei porque você está reclamando. Você só está deitada enquanto eu
faço todo o trabalho”, bafejou Tio Mick entre respirações curtas.
Na manhã seguinte minha mãe acordou cedo e correu para a tenda da Tia June
contar a ela.
“Aposto que você está cansada”, ela disse quando viu Tia Sheila no
café-da-manhã.
“Não, por que?”, Tia Sheila parecia surpresa.
“Bem, Eu ouvi todo o barulho. Você quase acordou a droga do acampamento
inteiro!”, o rosto de mamãe era de desgosto.
“Ah sim!”, disse Tia Sheila quando a ficha caiu: “A droga da cama inflável
esvaziou no meio da noite e passamos horas tentando inflá-la de novo!”
Foi em Abersoch, em volta da fogueira do acampamento, que uma noite minha
mãe me contou pela primeira vez como ela conheceu meu pai. Eu sentei,
ouvindo com atenção, completamente fascinada.
Andrea Dixon tinha 17 anos quando conheceu Martin Brown, de 19, em 1972 em
Chapeltown, que era e ainda é uma área de gueto em Leeds. Os pais dela
teriam surtado se soubessem que ela estava em Chapeltown, mas eles nem
sabiam que ela tinha saído, apesar de que Vovô provavelmente suspeitava.
Ele costumava fechar com pregos as janelas para que ela não pudesse voltar
após fugir, ou se não voltasse até certa hora.
Não havia gente negra em Seacroft, onde a família dela morava, então foi um
choque quando ela levou meu pai negro e funky para casa. Os pais dela não
conseguiam entender. Estranho, eu sei, mas naquele tempo um casal
multi-racial era uma dessas coisas que você muito raramente via – e se
visse, você engasgava e encarava.
Os pais da minha mãe eram contra relações de integração racial. Eles não
tinham experiências com negros e quando minha mãe e meu pai foram jantar lá
pela primeira vez, eles falavam muito devagar e alto com meu pai, como se
ele não pudesse entender inglês. “OLÁ... Martin... COMO... vai... VOCÊ?”
Por que eles estão falando assim?, pensou meu pai.
“Vou bem, obrigado.”, ele respondeu, apertando a mão de Vovô.
“Cacete, você é de Yorkshire!” Vovô gritou, achando difícil acreditar que
meu pai tivesse o mesmo sotaque que ele tinha. Entretanto, Vovó Branca
continuou se esforçando, explicando tudo que tinha no prato do meu pai, como
se ele fosse de outro planeta.
As irmãs da minha mãe não pensavam nada dela estar com meu pai, mas os pais
dela estavam enojados com ela. Ela logo percebeu que se ela ia continuar
saindo com meu pai, ela teria que sair de casa, então ela foi morar com ele
três meses depois, para ter mais liberdade do que qualquer coisa.
A mãe e o pai dela a afastaram, apesar que aceitaram o relacionamento
depois.
Ela se meteu em confusão por não ir para casa no Natal naquele ano. Meu pai
não tinha para onde ir, então minha mãe decidiu ter uma ceia de Natal na
cama dele em Headingley, perto do campo de cricket (onde eu depois fui
concebida). Eles comeram ovos mexidos e feijões cozidos e ficaram na cama o
dia todo. Legal ou o que?
Meu pai estava acostumado a encontros de família, apesar de que ele não era
nem um pouco tão próximo de sua família como minha mãe. Isso é parte porque
em 1955, quando ele tinha dois anos, os pais dele deixaram a irmã dele e ele
pra trás, em Nevis (uma ilha pequena no Caribe) com a avó deles, e vieram
para Inglaterra ganhar a vida. Como muitos da geração deles, eles tinham
olhando o futuro e percebido que poderiam ter um padrão de vida melhor se
saíssem de Nevis.
Primeiro eles ficaram com o irmão da Vovó em Ipswich. Depois de seis meses
eles se mudaram para Leeds, onde eles tinham mais chance de arrumar trabalho
– Vovó era uma costureira ótima e Leeds era a terra das alfaiatarias.
Meu pai diz que até hoje a mãe dele leva as cicatrizes do que houve com ela
quando ela chegou a Leeds. Ela nunca esqueceu a maneira que as pessoas
brancas atravessavam a rua para evitar meu Avô e ela quando eles andavam nas
ruas. Levou muito tempo para eles acharem um lugar para morar. Todo lugar
que eles iam havia placas: “Vagas. Não irlandeses. Não negros.” Vovó nunca
superou.
Levou 7 anos para que eles conseguissem empregos estáveis e uma casa. Só aí
eles podiam começar a juntar para a viagem de barco do meu pai e sua irmã.
Eles trouxeram as crianças quando meu pai tinha 9 e a irmã dele 12 anos, mas
até lá já era como ir morar com estranhos. Meu pai não queria deixar sua avó
e foi gritando todo o caminho até Chapeltown. Acho que foi difícil construir
uma relação com os pais dele quando ele chegou. A mãe dele, em especial, era
muito severa e ele nunca teve a coragem de enfrentá-la. É comum para as
crianças caribenhas serem criadas severamente, mas Vovó Negra era ainda mais
severa que o resto, segundo meu pai.
Eu sempre perguntava pra ele da infância dele e seu passado, mas ainda é
doloroso para ele falar sobre isso, então os detalhes são incompletos. Eu
sei q foi um golpe terrível deixar a única vida q ele conhecia e se mudar
para um país estranho, apesar de q ele logo se adaptou, como as crianças
fazem. Em Nevis ele morava com a avó dele numa pequena fazenda. Ela era
severa, mas ele também tinha muita liberdade. Ele alimentava os porcos, as
cabras, os perus e as galinhas e ajudava com as outras tarefas domésticas
antes e depois da escola, mas o resto do tempo ele estava livre para
circular pela ilha com seus amigos.
Eles jogavam cricket na praia e vagavam pela bela floresta e as montanhas,
catando frutas pelo caminho.
Era uma vida quase perfeita para um garotinho, então não era surpresa ele
não querer deixá-la pra trás. No dia q ele deveria dizer adeus, ele
desapareceu pela floresta e se escondeu, esperando desesperadamente que
perdesse o barco.
Mas a avó dele conhecia todos seus esconderijos, e ele foi levado gritando e
esperneando a um barquinho, que o levou até um barco maior, que o levou para
Inglaterra. Ele realmente sentia saudade de sua avó. Apesar de que ele
sempre escrevia pra ela, ele não a viu por 30 anos, quando ele voltou para
Nevis para o funeral de sua tia. Levou um mês para chegar à Inglaterra.
Saindo do barco nas Docas de Southampton num dia gelado de Fevereiro, meu
pai viu neve pela primeira vez na vida. O chão estava cheio dela. Foi um
choque completo, ele nunca tinha ouvido falar em neve. Parecia tão bonita e
fofinha q se ele se surpreendeu que ela era gelada demais quando a tocou. E
quando ele olhou pra trás e viu suas pegadas na neve ele surtou, convencido
de q estava sendo perseguido por um fantasma.
Nas Docas a mãe dele correu até ele e a irmã dele e a puxou em seus braços.
Por sorte eles a reconheceram por todas as fotos que ela mandou durante os
anos. Meu pai era acostumado à severidade – a avó dele não era moleza – mas
ele achou sua mãe formidável. Ela tinha uma presença excepcionalmente forte
e era muito fechada emocionalmente. Meu pai não fala muito desse período da
vida dele, mas eu sei q ele se rebelou. Na adolescência, ele costumava usar
lápis de olho preto e desenhar um pequeno bigode, porque isso era o que se
fazia na época. Depois eram grandes afros e plataformas.
Quando ele saiu da escola, ele fez um curso de 2 anos de engenharia. A firma
em que ele treinou ia levá-lo ao Canadá, mas aí ele teve uma briga com os
pais, saiu de casa e largou o emprego. Seus pais acharam difícil perdoá-lo
por isso.
Eu acho que foi parcialmente por isso que eles ficaram sem falar com ele por
anos. Qualquer q seja a razão (ele não fala sobre isso), eles tiveram um
grande desentendimento.
Meu pai foi viver com uma tia por um ano, depois dividiu um apartamento com
5 jovens rapazes. Ele estava vivendo sozinho e trabalhando como um alfaiate
quando conheceu minha mãe. Dois anos depois ele virou assistente de
engenharia na Yorkshire Imperial Metals, quando ele tinha que trabalhar em
turnos por 25 anos.
Uma
coisa que posso falar sobre Papai é que ele o homem q mais trabalha duro que
conheço. Ele raramente tinha dias doente faltando e nunca reclamava do
trabalho. Ele constantemente fazia 2 turnos (16 horas) toda semana quando eu
era criança e minha mãe às vezes fazia 3 trabalhos em um dia. Desde nova
eles me ensinaram que o único jeito de ter o que você quer é trabalhando
duro para isso.
Minha mãe deixou a escola aos 15 anos e fez trabalho geral de escritório por
um tempo, mas era tão mal pago que ela foi trabalhar numa fábrica de
biscoitos. Depois disso ela fez inúmeras coisas diferentes, incluindo duas
noites por semana no caixa de uma boate em Bellevue Centre, onde meu pai
jogava campeonatos de ping pong.
Meus pais se casaram em 2 de Agosto de 1975. Eu amo a foto de casamento
deles. Minha mãe está em um vestido justo azul claro com botas plataformas
enormes e meu pai tinha essas lapelas enormes, cabelo bagunçado imenso e
grandes e selvagens chamas. Eles pareciam como um casal rock & roll.
Pessoas dos dois lados da família disseram: “Casais multi raciais não dão
certo. Não é justo com os filhos.” Mas minha mãe tinha certeza do que estava
fazendo. Ela achava que nenhum deles entendia. Aceita os outros pelo que
eles são, e faz o impossível virar possível." Obrigada Mamãe, por manter sua
opinião.
Mamãe ficou no hospital por 7 dias, principalmente porque o senhorio do
quarto de Headingley não aceitava bebês.
O conselho havia prometido uma casa pra quando eu nascesse,mas no meio tempo
meus pais tiveram que morar na casa dos pais da minha mãe, o que era no
mínimo estranho.
Mas não demorou muito quando minha mãe saiu do hospital pro departamento de
moradia entregar as chaves da Harold Grove 1,uma casa com as costas pra
outra casa, no Hyde Park. Por sorte era em uma área de integração racial.
Dinheiro estava apertado, então minha mãe foi trabalhar quando eu tinha um
mês de vida. Sem uma babá, ela só podia ir trabalhar quando meu pai voltava,
então ela fez todo tipo de coisa, incluindo servir peixe e batatas numa loja
de batatas. Mas isso só durou uma noite. Ela percebeu que não servia pra
isso quando borrifou seu pé com gordura fervendo e quase queimou seus dedos
quando passou um monte de peixe de uma frigideira pra outra.
Durante o dia ela me levava ao parque ou pra mãe dela. Ela não visitava
muito os pais do meu pai porque era uma viagem longa de 2 ônibus até
Chapeltown.
No final da nossa rua tinha uma loja onde minha mãe sempre passava pra
comprar leite ou chá. "Ah a pequena Sherrel!",os donos sussurravam quando me
viam. "Nãaaaaao", minha mãe os corrigia:"É a Melanie."
Acontece que a mãe da pequena Sherrel, Bernie, que morava perto, também
sofria um caso de identidade trocada. "Ah a pequena Melanie!", eles diziam a
ela. "Quem diabos é Melanie?", ela perguntava:"Essa é a Sherrel."
Inevitavelmente as 2 mães finalmente se esbarraram e começaram uma amizade
que duraria uma vida. As semelhanças entre Sherrel e eu eram incríveis numa
época em que bebês mestiços eram raros. Não somente parecíamos irmâs, mas
havia só um mês de diferença entre nós. Bernie e minha mãe se deram bem
desde o começo, as duas sendo meio loucas. Foi ótimo porque elas começaram a
dividir as babás de Sherrel e eu, e logo éramos constantes na vida uma da
outra.
Moramos em Harold Grove por 5anos. À tardinha quando todos voltavam pra casa
do trabalho, eu sentava na calçada e esperava as pessoas passarem e falarem
comigo.
Morávamos numa área de estudantes e eles me amavam, mas meu passante
favorito era uma mulher que eu chamava de Minha Dama, que me dava um doce
todo dia. Ela era uma velhinha excêntrica enfeitada com contas e brincos
fora de moda e sapatos elegantes. Quando eu via ela chegando eu
gritava:"Minha Dama chegou!" Durante o dia eu constantemente vagava
conversando com os vizinhos. Hyde Park era um lugar atraente para uma
criança e parecia muito seguro pra mim.
Eu tinha muita energia pra gastar.Eu fui hiper-ativa minha vida toda, tanto
que Bernie me chamava de "corrente de ar",por causa das correntes que eu
criava correndo pra lá e pra cá. Ela ligava pra minha mãe:"Traz ela aqui,
está quente hoje!"
Minha mãe tinha que implorar pra Tia Sheila cuidar de mim. Ela dizia:"Por
favor, por favor,por favoooor cuide dela",e Sheila respondia:"Oh,eu tenho
que perguntar pro Mick" Tio Mick dizia:"Que inferno, ela nunca para! Corre
corre corre corre!"Eu era passada pela família como se fosse uma batata
quente. Ninguém me agüentava muito tempo, só a Tia June. Todos falavam que
ficar comigo era como apagar um incêndio.
Eu não era tão sapeca, só uma menina viva que queria e precisava de atenção.
Você não podia me dar um livro pra lá, você tinha que ler o livro comigo.
Você não podia me dar brinquedos pra brincar, porque eu não brincava
sozinha. Eu fazia meus pais sentarem comigo horas sem fim na minha casa da
Wendy enquanto eu os dava sanduíches e ensinava jogos. Isso devia
enlouquecê-los, mas nunca os vi reclamando.
No momento que aprendi a falar eu tinha que saber tudo de tudo. Eu era um
pesadelo! Eu não podia só fazer uma pergunta. Eu tinha sempre que saber
mais."Mas por que?" Não importava o que me respondessem, eu perguntava:"Não,
mas por que é assim?" Eu tinha q saber os menores detalhes, porque os
pássaros tinham penas, como seus olhos se movem,porque não tinham
sobrancelhas,quanto vivem - tudo. Obviamente meus pais não tinham todas as
respostas.
O único porém na minha vida agitada era q eu costumava gaguejar quando
estava muito animada.
Sentar na mesa tentando pedir pro meu primo Andrew me passar o m-m-molho de
t-t-t-omate não era divertido.
Eu estava sempre agitada. Meus primos adoravam porque eu era louca. Eu
pulava na cama deles por horas, gritando:"Eba, eba! Eu to na casa da Joanna!"
Eu idolatrava minha prima Joanna. Ela era a perfeita com seu cabelo loiro.
Eu queria parecer com ela e não entendia porque eu não parecia.
Quando eu tinha 4 anos, no banho com minha mãe,eu disse:"Mamãe, eu te amo
porque você é branca" Minha mãe achou isso muito incômodo mas meu pai disse
pra ela não exagerar. Ele pensava a mesma coisa sobre alguns professores
dele quando era criança. Na época você não via negros em propagandas ou
capas de revista. Eles eram invisíveis na mídia. Cabelo loiro e olhos azuis
eram o ideal de beleza, quase que exclusivamente. Eu cresci odiando filmes
preto e branco. Eu odiava o fato de que todos pareciam ter escravos e
serventes negros neles. Me chateava a forma com que os negros eram
retratados, mesmo sendo a maneira que era na época. Esses filmes faziam meu
coração sangrar e eu ainda não posso assisti-los até hoje.
Quando eu tinha quase 5 anos, minha mãe me explicou que eu ia ganhar um
irmão ou irmã. "Vai ser loiro de olho azul? É assim que eu quero", eu
implorei.
"É melhor pedir pro seu pai se você quer que seja branco!", ela riu,
acrescentando:"Não, vai ser igualzinho a você!"
Quando eu fui ao hospital com meu pai ver o bebê, eu olhei pra Danielle e
chorei desapontada.
"Devolve ela", insisti, "Ela não é branca e o cabelo dela é preto" Eu estava
acostumada a estar rodeada da família da minha mãe, onde todos eram brancos
e loiros e era esse tipo de bebê que eu esperava que minha mãe tivesse.
Danielle passou por algo parecido. Ela costumava dizer:"Eu sei que me chamam
de Danielle Brown porque nesse momento sou marrom,mas quando eu crescer vou
ser branca."
Minha mãe tinha que explicar:"Você nunca vai mudar sua cor. Você tem um
pouco do seu pai e de mim e é cor de café. Mestiça. Você tem o melhor dos 2
mundos."
Danielle tinha 1 ano quando minha mãe voltou a trabalhar, dessa vez numa
loja de roupas. Ela curtiu até certo ponto.No primeiro dia dela lá ela não
mencionou às colegas q era casada com um negro. Por que deveria? Ninguém
vinha até ela e falava:"Aliás, meu marido é escocês ou irlandês."
Infelizmente as outras vendedoras contavam muitas piadas racistas. Minha mãe
se calou por alguns meses, muito pra poupá-las da vergonha, mas depois de um
tempo ela sentiu que as coisas tinham passado do limite. Tinham tantos
comentários racistas na loja que ela resolveu que deveria dizer alguma
coisa.Tenha em mente que minha mãe é o tipo de pessoa, diferente de mim, que
consegue segurar a língua. Demora muito pra ela falar o que pensa, mas
quando ela fala, você fica sabendo.
Então ela mostrou a todas fotos de Danielle e eu e disse:"São minhas
filhas."
"Oh não são dos negros que não gostamos, são dos asiáticos!", disse uma
colega na tentativa patética de se justificar. Minha mãe disse que sentiu
vergonha por todas elas.
Eu e Sherrel estávamos na mesma sala na creche e no primário. Hora da
história era a melhor hora no Westfield Grove Primary School,quando você
tinha q sentar de pernas cruzadas e quieto.Era aí,e só aí, que você deixava
um menino colocar os braços ao seu redor quando a professora não olhava.
Minha melhor amiga em Westfield era uma menina chamada Julie. Ela era
realmente muito bonita, com um cabelo preto comprido,e eu queria tanto ser
como ela. Ela tinha sujeira debaixo das unhas, então eu arrastava meu dedo
no chão pra ter o mesmo efeito. Eu sempre rio disso sozinha quando faço,
hoje, manicure. Hoje em dia eu passo horas e horas(e gasto uma
fortuna)tentando criar o total oposto da "aparência da Julie".
Eu tinha boa reputação no primário. "Que criança educada. Um prazer de
ensinar!" Todos os professorem me amava. Eu era energética, mas não levada.
Quando eu chegava da escola eu mudava meu uniforme pra roupas de "brincar lá
fora",botava meu casaco e sapato e esperava. O casaco e sapato eram
particularmente importantes porque quando minha mãe dizia: "Ta bom, estou
indo pra casa da Bernie!", eu poderia dizer:"To pronta!" Se eu não tivesse
de casaco e sapatos ela poderia dizer:"Não ta nada. Já fui!" e desaparecia
pela porta.Ela era muito impaciente e eu odiava ficar pra trás. Pra mim,ela
tinha uma vida muito excitante - sempre indo pra casa de alguém.
Domingos eram ótimos. As tias e seus maridos e filhos iam pro jantar da Vovó
e eu ajudava na mistura do pudim de Yorkshire. Éramos uma família bem unida.
Vovô estava sempre lá com um saco de balas pra mim. Ele normalmente ficava
bêbado e se balançava, fumando seu cachimbo, contando piadas e sendo
engraçado. Eu costumava ir ao jantar catar framboesas com ele.Tínhamos uma
relação muito especial. Pensar nele me faz sorrir.
Quando eu tinha 5 anos nos mudamos pra Westfield Road 74,também no Hyde Park.
Tudo que me preocupava no dia que nos mudamos era:"COmo o Papai Noel vai
saber pra onde q nos mudamos?"
A nova casa era numa propriedade grande do conselho. lugar tinha realmente
um espírito de comunidade e a porta de todos estava aberta no verão. Sempre
tinha algo acontecendo - alguém pego tendo um caso ou devendo dinheiro de
drogas ou traficando, ou cafetões batendo na porta dos vizinhos. Tinham
fabricantes e prostitutas e mais, tudo acontecendo. Eu adorava.
Eu passava a maior parte do meu tempo livre no "refúgio",brincando com as
outras crianças. Nós arrumamos o refúgio entre 2 paredes paralelas,
transversal a estrada da nossa fileira de casas. Firme com entulhos,isolada
do mundo,era o lugar perfeito pra se esconder com pedaços estranhos de
madeira, e forrar o chão com lençóis. A casa na Westfield Road era maior que
a de Harold Grove. Meu quarto era ótimo, com carpete rosa, paredes rosas e
beliches. Eu até tinha portas estilo salão de cowboy no armário do meu
quarto.Eu amava essas portas e costumava me vestir e me atirar
nelas,dançando e cantando. Elas eram uma ótima maneira de entrar. "Da-da!"
Swing. "Aqui estou eu!".
Meu melhor brinquedo era minha casa da Barbie, que era quase tão alta quanto
eu. Eu também tinha uma boneca falsa Cabbage Patch chamada Luby Lou que eu
fiquei bem apegada, e um Tiny Tears que chorava. Como todas as crianças da
minha área eu não tinha muito ,mas o que eu tinha eu cuidava e emprestava.
Eu mal percebia meus pais economizando e guardando. Acho que crianças nunca
percebem. Eles falavam aquelas coisas:"Você não pode ter isso", mas eles não
explicavam e eu não me sentia privada de nada.
Quando Sherrel ficava aqui, o que era bem comum, eu implorava pra ela me
contar a história do Repulsivo. Não tinha nada demais - "Repulsivo levantou
da cama, foi pra loja e encontrou o Cocô e a Meleca..." , mas eu achava as
palavras hilárias. Ela me deixava na beliche de cima. Ela teve e ainda tem
um ótimo senso de humor. Leva um tempo pra ela se acostumar as pessoas, mas
quando ela se solta você não consegue fazê-la parar.
Palavrões eram engraçados, sexo não. Uma noite ouvi meus pais fazendo sexo e
fiquei apavorada. Obviamente eu não percebi o que eles estavam fazendo e eu
corri pro quarto deles gritando:"Sai de cima dela agora!" Depois corri lá
pra baixo, pra cozinha.
Minha mãe não conseguia parar de rir. "Você desce e fala pra ela que está
tudo bem", ela disse pro meu pai.
Então meu pai desceu e tentou explicar."Eu e sua mãe estamos só nos amando."
"Não! Eu ouvi ela gritar! Você ta machucando ela! Eu estava furiosa com ele
mas ele só queria rir. Era um dilema. Ele não queria explicar sexo, porque
eu era muito nova, mas ele não queria que eu pensasse que ele estava
machucando minha mãe. Ele conseguiu me acalmar no final.
Minha mãe odiava dormir sozinha quando meu pai trabalhava no turno da noite,
então ela normalmente fazia eu ou Danielle dividirmos a cama com ela. Ela
dizia: "Uma de vocês tem que dormir comigo, qual das duas vai ser?"
Nós duas dizíamos: "Eu não!" porque você tinha que deitar paradinha na cama
da Mamãe e sofrer a veemência das pernas raspadas dela enquanto elas se
esfregavam por você a noite toda.
Por um tempo a Tia Di e o Tio Steve moraram com a gente. Nove meses antes
eles estavam juntando dinheiro pra casar e comprar uma casa, mas resolveram
gastar o dinheiro em viagens em vez disso. Então eles viajaram pra Índia e
viraram, tipo, "realmente multi culturais e experientes. Quando voltaram,
eram hippies e suas roupas eram cobertas por espelhinhos. Eles chegaram na
nossa casa no Natal de 1981 e ficaram 2 anos. Tia Di voltou a trabalhar como
secretária e Tio Steve foi trabalhar com venda de carros.
Eu nunca vou esquecer ter que fazer meu dever na cozinha. Eu era bem ruim em
Matemática, e Tia Di tentava me ensinar a dividir e subtrair. Depois de um
tempo, ela dizia: "Certo,meu tempo acabou." Depois Tio Steve vinha tentar
mas eu ainda não entendia. Então meu pai vinha, e finalmente, minha mãe. Ela
tentava por 2 minutos, porque ela não tem paciência. Depois de eu passar por
todos, eu tinha q ficar ali e tentar sozinha. O vidro embaçado, brega e
velho q ia da cozinha até a sala da frente significava que você podia ver a
sala, mas não muito. Eu sentava com meus livros, pensando. Oh Deus, eu tenho
q acertar isso antes de poder ver TV ou sair pra brincar.
Eu nunca entendi direito, essa Matemática.
Quando eu tinha 6 anos, Vovô Branco começou a ter essas infecções ruins no
peito. Depois de uns meses,ele dormia numa cama no andar de baixo porque ele
estava muito doente pra subir. Eu não fazia idéia de que ele estivesse tão
mal até ele morrer, quando eu tinha 7 anos, e mesmo aí eu era muito nova pra
entender. Eu realmente sentia falta dele quando ele se foi e ainda
sinto,apesar q sei q ele está olhando por mim de algum lugar.
Alguns dias depois dele morrer,minha mãe pediu pra Tia Sheila cuidar de
mim.Sem contar pra Mamãe, ela me levou pra capela do funeral dele pra
prestarmos nossas condolências para o caixão aberto dele. Deitado ele,
embalado por um pano, com os olhos fechados, sua pele branco-neve estava
tingida com blush espalhafatoso. Eu toquei nele, abracei, conversei com ele
normalmente, um pouco confusa q todos ao redor choravam e eu não entendia o
porquê. "O que há de errado com vocês todos?" Desnecessário dizer que minha
mãe surtou quando soube onde eu havia estado. Ela ficou muito preocupada q
eu tivesse pesadelos. Não tive, mas tenho uma forte memória dele deitado
ali, como se fosse ontem.
Depoisqueq Vovô morreu, Vovó se mudou da casa da família para um apartamento
pequeno. Todas as irmãs a ajudaram a decorar, principalmente Tia Pamela. O
espírito do Vovô viveu na minha mãe. Quando íamos visitar a Vovó, ela dizia
coisas como: "E aí, Mamãe, fazendo sexo?" Eu me encolhia.
"Você é uma nojenta falando isso na frente da Danielle e da Melanie", Vovó
respondia, "Vem pra cozinha, Melanie, e me ajude no pudim de Yorkshire!"
Minha mãe gargalhava.
Quando eu era muito nova, o Natal era passado na casa de tias diferentes.
Sheila, Di, June e minha mãe tinham todas 2 filhos cada, então era uma
loucura. Era muito especial quando íamos pra casa da Tia June porque ela
morava em Manchester e nós íamos pra lá num comboio. A comida dela era
definitivamente a melhor.
Nós jogávamos jogos fantásticos no Natal. Tio Barry fazia muitos cartôes
estilo Brucie e nos juntávamos pra jogar "Play your cards right". "Mais
alto!Mais baixo!Mais alto!" Todos soltavam os cabelos e as crianças podiam
dormir tarde e participar. Nunca diziam: "Certo, hora de dormir agora". Era
ótimo e, é claro, eu era uma das mais gritonas. Nós garotas brincávamos de
"coisas rudes" com os primos Barry, Andrew, Michael e Nicholas. Era como
médicos e enfermeiras sem a parte da ciência.
A casa da Tia June era elegante.
Você sabia porque ela tinha um lugar pra sentar na janela com almofadas.
(Mais tarde minha mãe tentou imitar isso, mas não deu muito certo)O banheiro
de June era cheio de estátuas de sapinhos - ela tinha mania por elas e você
não podia tocá-los. Você morreria de vontade, mas não tocaria.
Depois que Vovô morreu, paramos de ir no Natal pras tias e todos revezavam
ficar com a Vovó. Nessa época Bernie e Sherrel vinham passar o Natal na
nossa casa. Sherrel trazia alguns de seus presentes ainda fechados. "Sherrel,
o que você ganhou?", eu perguntava, olhos brilhando. Antes qqueela
percebesse, eu já tinha aberto todos e ficava lá, usando o vestido e os
sapatos novos dela.
"Eu to vestindo os presentes da Sherrel!", eu gritava triunfante.
"Sim, você tá", ela dizia calmamente, completamente calma. Ela era tão
relaxada q eu escaparia por assassinar alguém. Eu até abri os presentes dela
no aniversário dela porque achei que ela não tinha aberto eles na hora certa
pro meu gosto.
Apesar de ser difícil, eu tinha um forte senso de justiça desde novinha.
Quando eu tinha 8 anos, veio a noticia de que entregariam um novo computador
pra escola. O diretor decidiu que ele seria dividido entre as duas melhores
turmas. A outra sala podia usá-lo por 3 dias e nós por 2.
Toda semana eu ia pra casa dizendo:"Mas não é justo! Você acha que é justo?"
Meu pai via como eu estava abalada. "Se você acha que não é justo, é dever
seu dizer isso pra sua professora e explicar o porquê.", ele disse.
Foi o que fiz.
"Não é minha escolha", disse a professora, "É do diretor. Temo que seja
assim mesmo."
Eu ainda não tinha aceitado. Eu ia pra casa reclamando. Estava realmente me
incomodando.
No final da semana, quando minha mãe veio me buscar na escola, eu disse: "Eu
tenho que ver o diretor hoje."
"Oh meu Deus, o que você fez?",ela disse,em pânico.
"Eu simplesmente sei que tenho que vê-lo agora!"
Eu fui até o escritório. Quando voltei,eu tinha um olhar aparentemente
convencido. "Eu resolvi",anunciei."O computador vai ser dividido igualmente
entre as turmas. 2 dias e meio cada. É justo agora". Eu não precisava ter me
preocupado, porque não muito depois minha mãe resolveu se mudar, o que
significava que eu mudaria de escola também.
Ela percebeu q eu comecei a notar homens batendo nas mulheres e homens
entrando e saindo das casas. Então apesar de ela e meu pai amarem Hyde Park,
ela disse a ele: "Olha, eu não vejo minhas filhas crescendo nessa área e
indo pro mesmo caminho dos outros. Eu quero me mudar e dar às minhas filhas
uma chance, mesmo que isso signifique pegar um empréstimo."
Meu pai não queria mudar porque ele tinha muitos amigos lá. E mais, ele
podia tocar música alto sem reclamações. Ele tinha centenas de fitas,do pop
ao reggae ao folk e country. Ele curtia tudo, até Dire Straits, apesar q ele
ouvia muito reggae.
O estilo de vida de lá agradava minha mãe também,mas ela sabia que podia
achar um lugar melhor pra criar os filhos e isso era prioridade.
Eles acharam uma casa em Kirkstall, uma área antiga.Quase não havia negros -
somente dois casais na outra rua, que parecia a milhas de distância. Nossa
vizinha de porta era uma louca que andava na rua de camisola. Ela era muito
velha e minha mãe me forçava ir lá e fazer chá pra ela ,o que eu odiava.
A nova casa era uma bagunça no início. Meu quarto tinha um chão imundo de
madeira com pedaços estranhos de carpete. Tinham ratos na cozinha e você
tinha que bater palmas bem alto antes de entrar lá. Uma manhã minha mãe pôs
a mão numa caixa de sucrilhos e saiu uma ratazana enorme. Eu fiquei
aterrorizada de entrar na cozinha depois disso.
A casa tinha 3 quartos com um pouco de jardim q sempre estava horrível, todo
amontoado e bagunçado,como se tivesse passado por uma guerra. Meu pai ficou
meio elegante com o jardim de trás, e decidiu que ia lajear tudo com as
próprias mãos. Levaram 3 anos pra ele terminar, mas no fim ele conseguiu!
Meus pais ainda tem essa casa hoje.Essa foi a casa q mudou nossa família.
Minha mãe arrumou o interior da casa,apesar de ser sempre um "processo
contínuo". Ela ajeitou todas as paredes e tetos,misturou galões de pasta
branca e passou horas numa escada tentando alcançar pontos inacessíveis. Ela
pintou as paredes de verde mato e vermelho, e poliu e varreu o chão de
madeira. Ficou bem estiloso, minha mãe era ótima nessas coisas, mas era
muito pequeno. No andar de cima tinham 3 quartos pequenos,todos muito
próximos, uma pequena plataforma e um banheiro. O andar de baixo consistia
em uma cozinha pequena, com uma mesa e um fogão, e a sala da frente.
Generalizando, meus pais trocaram de papéis. Meu pai cozinhava e fazia
compras, minha mãe fazia os pequenos consertos e a decoração. Meu pai tinha
morado sozinho por muito tempo, então estava acostumado a cozinhar e fazer
compras, enquanto que minha mãe tinha morado em casa até ir morar com ele e
não fazia idéia, então fez sentido ele tomar conta dessas coisas.
Eles uma vez tentaram decorar juntos quando eu era bebê, mas terminou numa
briga enorme.Meu pai estava na escada tentando colar um papel de parede, q
ficava caindo em sua cabeça."Já chega!", ele anunciou frustrado, arrancando
o resto do papel e jogando na minha mãe. "Eu nunca vou decorar com você de
novo." No dia seguinte, minha mãe ligou pra Bernie e perguntou se ela
ajudaria.Ela sempre fez a decoração depois disso.
Eu não sentia muita falta da nossa velha casa, porque Sherrel e Bernie
vinham sempre nos visitar.Quando minha mãe e Bernie se juntam pra beber elas
ficam loucas e sempre ficaram. Como a maioria dos adultos q eu cresci
cercada,elas trabalhavam tão duro em trabalhos desgastantes e na família,q
precisavam de pelo menos 1 noite por semana pra liberar - e é o q elas
faziam, com força. Noites de sexta na nossa casa eram sempre escandalosas,
incluindo muitas piadas,risada,gritos e bagunça. Elas colocavam eu e Sherrel
em todo tipo de coisa também.
Por exemplo,esse centro comunitário vizinho não nos aceitava como membros.
Bem, eles aceitavam nossos formulários e depois reviam a decisão, mesmo nós
sendo convidadas e indicadas por outros sócios.
Então Sherrel e eu nos vestimos de ladras,dos pés a cabeça de preto, com
armas falsas e gorros q tampavam nossos rostos, e quando qualquer membro do
clube passava, nós gritávamos: BANG! e pulávamos de trás da parede. Fazia os
velhos pularem, enquanto minha mãe e Bernie viam tudo de casa, se mijando de
rir.
Tinham pessoas entrando e saindo o tempo todo,sempre era uma casa cheia.
Deve ser porque minha mãe veio de uma família grande e estava acostumada a
ter muita gente por perto.Ela não gosta de ficar em casa sozinha,enquanto
meu pai gosta de ter a casa pra ele. Ele é um pouco solitário,na
verdade,como a mãe dele. Vovó Negra pode ficar semanas sem sair e ver os
outros e isso realmente não a incomoda.
Minha mãe é o tipo de pessoa q vive a vida ao máximo,faz uma casa linda e
tem todo mundo por perto.Ela criou um clima familiar seguro, mas isso não
diminuiu minha constante busca por atenção.Eu era muito carente,suponho,além
de hiper-ativa e meio metida.
Agora,minha mãe estava quase no limite comigo. Ela estava sem idéias de como
me cansar. Brownies não adiantavam,nem nadar,nem nada.Ela estava arrancando
os cabelos.
Então, um pouco antes de nos mudarmos pra Kirkstall,algo aconteceu pra mudar
a minha vida. Sharon,a bonita garota de cabelos pretos e grande sorriso q
morava ao lado mudou completamente meu destino com uma pergunta simples.Ela
perguntou a minha mãe se eu podia ir a uma aula de dança com ela.
Talvez dançar fosse a resposta.
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